Por que a moeda sob o mastro?
Tradição milenar ainda conservada
Danilo Chagas Ribeiro

20 Jun 2018
Todo o barco deve ter uma moeda sob o mastro, diz a tradição. Assim fazem com os navios da marinha americana e com os transatlânticos. Assim fizeram também com o navio veleiro Cisne Branco, da Marinha do Brasil, e com vários outros barcos que conheço.
Nos dados de grandes navios encontra-se a data da cerimônia da colocação da moeda sob o mastro.
Por que a moeda?

Tradição romana
Os romanos teriam criado esta tradição, segundo o Museu de Londres. Arqueólogos britânicos encontraram um barco romano afundado no Rio Tâmisa, próximo à Ponte Blackfriars. O barco teria afundado no século III AD, e ainda estava carregado com pedras.
Na moeda romana (118AD), a representação da deusa Fortuna segurando um timão.

Deusa Fortuna
Quem construiu o tal barco romano (desenho) colocou uma moeda sob o mastro. A moeda mostra “Fortuna”, a deusa da sorte (boa ou má) e da esperança, segurando o timão de um barco, e com a cornucópia (corno da abundância). O timão representava o rumo da vida, e a cornucópia, os recursos. Os romanos esperavam que mantendo a deusa Fortuna feliz, ela traria boa sorte.

A origem da tradição
O Sexto Livro do poeta romano Virgílio diz que os velhos marinheiros colocavam uma moeda sob a base de cada mastro em pagamento à tarifa (pedágio) que o deus Caron, da mitologia grega*, cobrava para cruzar o Styx, o rio do ódio, que separa o mundo dos vivos, do mundo dos mortos. Estaria assegurada assim a passagem segura, caso um desastre ocorresse com o navio. A moeda valia para todos os tripulantes.

Perambulando 100 anos nas barrancas do Styx
Esta superstição era também praticada em caráter individual: uma moeda de cobre era colocada na boca dos marinheiros romanos mortos.
Caron era representado por um demônio alado, e conhecido como o barqueiro da morte. Para cruzar o Rio Styx, as almas dos mortos eram a ele conduzidas. Sem o pagamento, eram condenadas a perambular por 100 anos pelas barrancas do Styx.

“Electrolysis daemonium est”**
A eletrólise não é alada, mas quando embarcada, é um demônio também. E não é lenda. Caso V. tenha a intenção de conservar a tradição romana, lembre-se de que uma moeda de cobre ou de cobre-níquel em contato com o alumínio do mastro pode causar corrosão.

Segundo mensagem postada em um grupo de velejadores americanos, uma moeda de cobre caída no porão de um barco de alumínio pode abrir um buraco em algumas semanas (???). Assim que, caso V. pretenda mesmo garantir o pagamento a Caron em caso de infortúnio, bom seria talvez laminar a moeda em resina antes de colocá-la sob o mastro. Considerando que os mastros são ocos, é fácil fixar a moeda.

Moeda ou Santinho?
Seja pela religião dos romanos ou pela tradição ao longo dos anos, ou mesmo pela superstição, ou até quem sabe por capricho, o fato é que os mastros continuam recebendo moedas. Há poucos dias eu soube de mais um velejador inaugurando o barco, já com a moeda fixada, mesmo sem saber de Caron & Cia.

Não sei se tem moeda embaixo do mastro do meu barco. Mas eu andei pensando bastante e resolvi que, em vez da moeda, vou colar este santinho da deusa Fortuna na cabine. Vai dar melhor resultado. Afinal, se Caron ainda anda aprontando, por que não andaria Fortuna também?
Na imagem ao lado, a deusa Fortuna com a cornucópia, o símbolo da plenitude

Veja a que ponto chega a doideira!

Pergunta feita em um grupo de velejadores americanos na Internet
(set 2004):

– Tirei o mastro do meu barco e a moeda caiu (era um dólar de prata de 1880). Devo colocar a mesma moeda de volta ou substituir por uma mais moderna?

Respostas:
– Você deve acrescentar uma nova, de ouro ou de prata, mas não precisa ser rara. Assim V. estará colaborando com a sorte de seu barco.

– Ponha de volta. Há um corolário que diz que todos os barcos mal nomeados afundam. … Há uma bem estabelecida estatística de que marinheiros supersticiosos naufragam a uma taxa muito menor do que os não-supersticiosos…

– Tenho ouvido falar de barcos com 3 ou 4 moedas embaixo do mastro, adicionadas à medida em que os anos passam e o barco vai trocando de dono.

– É melhor substituir por um cartão VISA. Um dólar de prata não te leva nem de Seattle a Bremerton atualmente. 🙂
_________
(*) Muitos deuses romanos tinham origem na mitologia grega. Vênus, a deusa romana do amor, por exemplo, era a mesma deusa Afrodite grega. O deus Caron também é denominado Charon, Charonte, Caronte e Queronte.
(**) Arremedo barato de quem aprendeu latim no colégio.

Fontes consultadas:
Museu de Londres
Marinha Canadense
Encyclopedia Mythica
Superstition, Urban Legends and Your Money

Publicado pelo Popa.com.br originalmente em 19 Fev 2005

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here