1964 – E ASSIM DESCOBRIMOS GAROPABA – SC
Por Dirceu Lacerda
Via Cmte Paulo Silveira

A ideia partiu do Ernesto Neugebauer:
-Que tal participarmos da procissão marítima à Nossa Senhora dos Navegantes da vila de pescadores de Garopaba em Santa Catarina no dia 2 de fevereiro?
E nos explicou:
– Nas andanças com meu veleiro no litoral de Santa Catarina deparei-me com uma praia paradisíaca onde tem uma Vila de Pescadores, chamada Garopaba, com os quais fiz amizade. A Vila tem uma Igreja de mais de 150 anos , um conglomerado de casas simples, sem luz elétrica, em uma baia de águas mornas e mansa. Ao lado da Igreja tem um morro com uma bica d´água num platô que dá para montar um acampamento. É chamada bica da Santinha, pois lá tem um Santuário da Nossa Senhora dos Navegantes. Esses pescadores são oriundos da Ilha dos Açores.
E continuou
– Partiremos de Torres dia 30 de janeiro, via Criciúma, para dormirmos em Imbituba. Chegaremos a tardinha do dia seguinte em Garopaba. Já fiz o itinerário através de estradas vicinais. Pensem…

Essa proposta nos foi feita em uma tarde de um sábado de dezembro de 1963 no Club Inglês, durante um jogo de dados, que chamamos Durão, trazido pelos ingleses. Éramos um grupo de 12, todos com casa em Torres, onde as famílias veraneavam durante o verão.

Na comemoração da passagem de ano, em Torres, a aventura já estava aceita, com entusiasmo. Durante o mês de janeiro foi tudo esquematizado: um caminhão da Chocolates Neugebauer levaria 20 engradados de cerveja, 2 caixas de whisky, uma cozinha completa, colchões, etc; e também os temperos escolhidos pelo Ernesto que, prazerosamente, exigia ser o “Mestre Cuca”.

Na Kombi do Ernesto iriam Felix Kessler, Gilberto (Beto) Kessler, Sergio Schapke e Militão Ricardo. Na caminhonete DKW Vemag do Renato Silveira, iriam Dirceu Lacerda, Luiz (Zuza) Falcão e Fernando Antônio Azambuja. No Volkswagen do Betinho Becker iria o Paulo Marroni e Edmundo Bastian. E assim aconteceu.

Na madrugada de 30 de janeiro de 1964, após beijos de despedida nas esposas e noivas, ruidosamente iniciamos de Torres nossa jornada à Garopaba, verdadeira aventura antes do surgimento da BR-101. Por estradas poeirentas, esburacadas, cruzamentos de rios em balsa, com uma parada na lagoa de Laguna, onde compramos camarão e gelo, conseguimos chegar à tardinha em Imbituba para um merecido repouso.

No dia seguinte, seguimos viagem para Garopaba por estrada precaríssima, lá chegando após umas 5 horas. Uma vez instalado o acampamento ao lado da “Santinha”, o que nos levou o resto da tarde, fomos, comandados pelo Ernesto, à praia para conhecer os pescadores que estavam decorando os barcos de pesca para a procissão.

Garopaba, vista do morro, era um cartão postal: uma Igreja clássica do século XIX, no alto de uma escadaria larga iniciada numa praça e a sua volta uma aglomeração de casas de alvenaria simples, também de construção antiga, sendo que umas 12 delas de frente à praia cheia de barcos de pesca, com as ondas do mar batendo suavemente em seus cascos. Essas casas além de residência, também eram garagens de barcos. Depois delas uma praia larga de areia fina coalhada de cascas e ossos de “frutos do mar” numa extensão de aproximadamente 3 km, que acabava em um morro. Comparei a uma pequena Copacabana ainda selvagem.

À noite, após empanturrarmos de camarão à baiana, regado à cerveja e whisky, foi feito o batismo do grupo pelo “Deus Netuno” com seu Tridente, caracterizado pelo Ernesto . Lembro-me que o Renato foi batizado como ”Peixe Rádio”, por estar sempre com o rádio do carro ligado. Eu, de “Peixe Nero”. Tenho uma foto, com um lençol branco amarrado a um dos ombros e um tampo de privada nas mãos, representando uma lira.

O Militão, muito prático, inventou o “militório”, que era um funil tamanho GG ligado a uma mangueira de 10m, que durante a temporada foi de muita valia evitando a perda de tempo de sairmos dos nossos lugares na mesa.

No dia seguinte, pela manhã, participamos, junto aos pescadores, da puxada da rede de pesca. Ficamos impressionados com a quantidade de peixes amontoados na areia. Após a repartição de peixes entre eles para seu sustento, o restante foi entregue ao dono da única câmara frigorífica da vila, movido eletricamente por um gerador à diesel, que os comercializava em Florianópolis. Também nos chamou a atenção a quantidade de urubus na areia e no telhado das casas aguardando as sobras dos peixes pescados.

Seus moradores, católicos descendentes dos colonizadores vindos da Ilha dos Açores, conservavam a tradição trazida de lá em homenagear Nossa Senhora dos Navegantes no dia 2 de fevereiro. Para isso escolhiam, todo ano, entre eles, o Festeiro que seria o encarregado de patrocinar e promover essa festa, que consistia em, além da missa, da procissão marítima de todos os barcos devidamente engalanados, da dança do Bumba Meu Boi na Praça em frente à Matriz e à noite, na sede do Club local, do jantar musical de congraçamento de suas famílias.

Naquele ano, foi escolhido o Sebastião, pescador antigo, amigo de todos e o único preto da coletividade. Participamos, alegremente, da procissão, em um dos barcos, assistimos o Bumba Meu Boi com seus personagens devidamente paramentados e à noite fomos ao jantar dançante, onde, tradicionalmente, os convidados são recepcionados à porta do Club pelo Festeiro, naquele ano, o Sebastião. Como fomos os últimos a chegar, falamos: – Não vai entrar conosco? E o Sebastião respondeu: – Não, em festa de branco, preto não entra!

A quantidade de urubus no entorno das redes ao serem recolhidas era de fato impressionante. E isso estava incomodando os moradores. O farmacêutico resolveu acabar com eles. E para isso, pôs veneno nas sobras de peixes espalhados pela praia. Os urubus comiam os peixes, voavam a grande altura e repentinamente caiam verticalmente, já mortos. Soube depois que durante anos Garopaba sofreu com os restos putrefatos dos peixes até que, paulatinamente, os urubus voltaram. Fomos testemunhas de um verdadeiro crime ecológico!

Foram 5 dias de camaradagem, barbudos , em contato direto com a natureza, sem luz elétrica e outras facilidades da civilização. A sensação sentida, à noite, naquela escuridão total, deitado ao relento, vendo a lua naquele céu iluminado de milhões de estrelas é indescritível e continua inesquecível 56 anos depois.
Podemos dizer que nós conhecemos Garopaba, bem antes que o mundo a descobrisse!

Dirceu Lacerda 02.02.2020

E.T. As primeiras famílias de Açorianos chegaram em 1.666. A Igreja foi inaugurada em 1846 e Garopaba, em tupi-guarani, significa “lugar abençoado”.
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Crédito da foto: A Cabana Pousada – Garopaba SC
http://www.pousada-cabana.com/praias-de-garopaba/




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