Comandante Geraldo Knippling faleceu hoje, em Porto Alegre, aos 97 anos
Piloto e velejador deixou o maior legado cartográfico da história da navegação de recreio gaúcha


Comandante Geraldo Knippling e sua esposa Regina Knippling

Ex-comandante da Varig, instrutor de pilotos, um homem que não se contentava em saber “quase tudo” sem, no entanto, jamais perder a humildade. Respeitadíssimo em terra, no ar e na água, produziu obras literárias voltadas à navegação que jamais voltarão a ser publicadas, tal o vasto conteúdo e extremo esmero. Era apaixonado pela sua esposa, foi um grande amigo, meu mestre. Assim eu definiria o Cmte Geraldo Knippling, que aos 97 anos faleceu hoje, 13/04/2020, em Porto Alegre, no Hospital Moinhos de Vento, por parada cardíaca.

Entrega do troféu Amigo do Popa, no Veleiros do Sul

A carreira do Geraldo Knippling como piloto começou cedo. Natural de Santa Cruz do Sul, voou teco-tecos pelo interior do Rio Grande do Sul para fazer entregas dos Correios, nos primórdios da “correspondência aérea”, um luxo, na época.

Com mais de 40.000 horas de vôo, formado em Aviação Comercial pela Purdue University, nos EUA, agraciado com a Ordem do Mérito da Aeronáutica, o Comandante contou a história e as aventuras por ele vivenciadas em sua obra “Falando de Avião”, 1998. Dentre tantas lembranças, Knippling contou no livro sobre o sequestro que sofreu em 1969, no vôo Santiago do Chile – Rio de Janeiro, no comando de um Boeing 707. Com uma pistola 45 apontada para sua cabeça, não teve alternativa a não ser levar o avião para Cuba, embora tivesse plano para fazer diferente.

Geraldo Knippling teve a felicidade de conhecer a Regina, com quem casou e navegou por 30 anos a fio. Inseparáveis, Regina foi a grande parceira e companheira de sua vida. Navegavam no Rio Guaíba nos finais de semana, e pela Lagoa dos Patos em períodos de férias. Associado por décadas ao Veleiros do Sul, o Cmte Knippling adorava velejar a destinos inexplorados, não documentados, sempre na companhia da Regina, a quem carinhosamente chamava de Baixinha. O destino preferido era a Ponta Escura, na foz do Rio Guaíba. Magana significa uma mulher jovial, desenvolta, ativa e alegre. Só não entendi por que não batizou o barco de Regina…

Fotografando do topo do mastro do Magana, aos 87 anos, sem adriça, no peito e na raça

 

Mostrando os Caminhos

Por onde navegou, o Mestre demarcou milhares de pontos com seu GPS ainda de primeira geração, certamente o primeiro a ser utilizado por essas águas. Não tinha display gráfico e tudo o que o aparelhinho mostrava era as coordenadas. Era uma tremenda novidade para aquela época em que todos os navegadores utilizavam ainda as cartas de papel. A partir dos pontos demarcados ao longo de anos, em 1996, Geraldo publicou sua primeira obra cartográfica “Descobrindo o Guaíba”. Belissimamente ilustrada, apresenta muitos croquis de acesso aos mais desconhecidos ancoradouros e passagens do Guaíba, a quem sempre chamou de “rio”, jamais de lago. E defendeu essa nomenclatura por inúmeras vezes nas publicações que fez no Popa.com.br. Em 2002, o livro “O Guaíba e a Lagoa dos Patos” fez um tremendo sucesso no meio náutico. Não há quem veleje ou navegue por essas águas que não conheça suas obras.

“Com sua genialidade, seus conhecimentos e seu barco especialmente preparado, o Cmte Knippling nos ensinou os caminhos e os lugares mais pitorescos nunca talvez explorados antes. Em uma época de pouca tecnologia náutica, ele foi a longa manus de muitos navegadores. Seus livros editados são instrumentos à bordo !!”, disse o Comodoro do Veleiros do Sul, Cmte Cícero Hartman.

 

Tive o raro privilégio de velejar por uma semana com o Mestre no Magana, um veleiro de madeira que mandou construir bem como ele queria: baixo calado, quilha retrátil, pilot house com calefação, motor a diesel e outro a gasolina, e mais uma série de acessórios que não se vê nos veleiros que navegam por aí. Velejamos também no Canibal, do Cmte Andreas Bernauer para o Porto do Barquinho. A companhia do Mestre era sempre uma grande aula sobre os mais variados aspectos náuticos.

Aos 86 anos escalou sozinho o mastro do Magana arvorado nas barrancas do arroio Araçá, sem sequer estar adriçado. Assisti a façanha e gravei vídeo da arriscada missão para um octogenário. Knippling falava alemão, inglês e espanhol fluentemente. Pelo mérito nas peripécias por que passou, foi agraciado diversas vezes.

O Cmte Luiz Morandi, do Veleiros do Sul, resumiu assim sua admiração e convivência com o Esquadrinhador do Rio Guaíba e da Lagoa dos Patos: “Conheci o nosso querido Comandante Kiniplling lendo seu livro – Falando de Avião – onde fiquei sabendo da aterrisagem no mar com um Super Constellation sob seu comando e só com tripulação. Posteriormente nos tornamos lancheiros com a primeira Chamonix e conhecemos a região das Ilhas até São Jeronimo. A curiosidade de navegar para a Lagoa era uma constante em nossas navegadas. Um dia, através da indicação do amigo Danilo do Popa, compramos o livro O Guaíba e a Lagoa dos Patos e aí começamos a nos aventurar seguindo as indicações do Comandante Knipilling no seu livro.

Fiquei tão maravilhado com as fotos e narrativas, que adquiri 30 livros e entreguei para cada visitante internacional que eu recebia. Tem livro dele no Japão, Estados Unidos, Israel, Alemanha e por aí vai.

Tive algumas conversas de trapiche com o Cmte Knippling na ilha Francisco Manoel, onde conheci pessoalmente as virtudes e o conhecimento deste grande navegador.

Outra lembrança dele com seu Magana, foi dentro do Arroio Araçá onde aprendi a arvorar ao seu lado sempre com a cordialidade de um amigo e professor.

Bons Ventos Comandante!

Engenhoso, criativo e detalhista: mecânica de avião no veleiro

Multidisciplinar, o Cmte Knippling dominava tudo que dissesse respeito à náutica e à aviação. Da navegação propriamente dita à mecânica; da Meteorologia à regulagem das velas. Estudioso, conhecia muita teoria e tinha muita experiência prática. Tinha ainda muita didática, paciência, humildade e gosto para transmitir seus conhecimentos.

Engenhoso, criativo e detalhista, comprou na sucata da Varig uma engrenagem “sem-fim”, utilizada para movimentar os flaps dos aviões Eletra. Com ela instalada no Magana, movimentava verticalmente sua quilha. Equipou o veleiro com dois ecobatímetros, estando um deles instalado na proa, a 45º, para ver a profundidade adiante da proa. Nos costados junto à proa, instalou potentes luzes de docagem. Os parabrisas da cabine, que permitiam visibilidade em 360º, tinham limpador de parabrisa. O sistema de calefação alemão a gás aquecia toda a cabine e o pilot house. Instalou sensoreamento de tudo o que se pode imaginar, até de vazamento de gás no porão do veleiro. Logo à frente do hélice, um cortador de redes de pesca que trouxe dos EUA, safou o comandante de boas encrencas.

Geraldo dando entrevista sobre o pouso forçado do Constellation no mar, como bem narrado no Falando de Avião

 

O Cmte João Luiz de Mello, velejador e assíduo leitor das obras do Cmte Knippling, comentou que o “Magana é um veleiro de sorte. Não teve o destino de tantos outros, que envelheceram amarrados a alguma poita ou trapiche, esperando inutilmente seu dono. O Comandante Knippling não fez isto nem com a linda lancha que também teve. Navegou muito no Guaíba e na Lagoa dos Patos.

Com Rubem Berta, fundador da Varig, na chegada do Super-G-Constellation ao Brasil

Aviador, instrutor de pilotos, deixou o ar para viajar também na água. No timão do Magana descobriu e mostrou caminhos para lugares que muitos não chegariam sem ajuda. Generoso com seu conhecimento e prazer de navegar, publicou livros que são referência no meio náutico. Knippling navega agora noutras águas. O Magana espera em silêncio o adeus a seu comandante”.

A regra é muito simples”
Dentre os tantos ensinamentos deixados pelo Comandante Geraldo Knippling, deixo aqui uma passagem do livro Descobrindo o Guaíba, em abordagem sobre o fator humano na utilização do GPS. Escreveu o Mestre:
“Muitas vezes tudo vai bem até o momento em que alguém da tripulação ou o próprio comandante observa o horizonte noturno e verifica que o contorno do Morro de Itapuã, que deveria estar na proa, aparece à esquerda, nitidamente. Seguindo o seu ‘sexto sentido’, ele muda o rumo, xingando o GPS. Só que o contorno que estava vendo era o do Morro da Formiga.
Muito mais fácil de causar confusão é a identificação de bóias luminosas. Manter um rumo em noite ventosa, águas agitadas e ondas lavando o convés, já não é fácil. Fica a tripulação toda atenta e ansiosa olhando para a frente a fim de divisar no horizonte o fraco mas amigo lampejo da bóia desejada. Finalmente ela aparece, a princípio tênue e mal visível. Só que está à esquerda da proa. Instintivamente a tendência é mudar o rumo e aproar a bóia, errada! É fácil de acontecer. Por exemplo, navegando de Cristóvão Pereira para Tapes, antes de avistar a bóia luminosa do Pontal de Santo Antônio, avista-se a bombordo o farolete do Banco dos Desertores.
A regra é muito simples: jamais deve-se abandonar um procedimento de navegação pelo GPS (operado corretamente), seguindo um ‘sexto sentido’ que diz que o caminho é outro. Podem ter certeza que no confronto entre o ‘sexto sentido’ e o GPS, este sai ganhando sempre, tranqüilamente.”

Estrelas a barlavento, Comandante!

Na foto de Geraldo Knippling, a Porto Alegre de 1954. Ao fundo, a chaminé fumacenta da Usina do Gasômetro. À esquerda da usina, o grande prédio branco da Cadeia. E mais à esquerda, o prédio escuro e cilíndrico, com domo brando, era o Gasômetro. Aplique zoom para ver melhor.

Estripulia de um guri de 86 anos

Há 11 anos, aos 86, Mestre Knippling escalou o mastro do Magana sem adriça, na barranca no arroio Araçá. Veja a velocidade com que ele sobe e a facilidade com que manobra lá em cima. Em determinado momento, observe que ele fica suspenso apenas pelos braços enquanto gira o corpo e troca os pés. Coisa de guri. Um guri de 86 anos.

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