O kitesurf e wingfoil no Ceará viraram, nesta semana, o assunto mais quente da náutica brasileira. Desde a última quarta-feira, dia 16 de setembro, a Praia do Preá, no município de Cruz, recebe o Festival GKC Velas Preá 2026, que reúne o Campeonato Brasileiro de Kite (nas modalidades Strapless Freestyle, Rally Cross e Big Air), o Campeonato Brasileiro e Cearense de Wingfoil Race, o Campeonato Brasileiro de Canoas Tradicionais e o Desafio Sertões Kitesurf. As disputas propriamente ditas acontecem nos dias 19 e 20, mas a programação, que mistura esporte de alto rendimento, cultura local e sustentabilidade, já toma conta do litoral desde a abertura oficial.

O que me chamou atenção ao apurar esta pauta não foi só o calendário esportivo, é o contraste entre dois movimentos que estão acontecendo ao mesmo tempo no estado. De um lado, um boom turístico e econômico em cima do vento que sopra na Costa dos Ventos. Do outro, uma corrida legislativa para regulamentar a segurança de um esporte que cresce mais rápido do que a fiscalização consegue acompanhar.

Kitesurfistas E Praticantes De Wingfoil No Vento Forte Da Costa Dos Ventos, No Ceará
Kitesurf e wingfoil dividem o vento da Costa dos Ventos, no Ceará, palco do Festival GKC Velas Preá 2026

Um festival que mudou de praia

A edição 2026 do Festival GKC Velas marca uma mudança geográfica relevante: depois de cinco edições consecutivas na Praia de Guajiru, o evento se mudou para o Preá, em Cruz, tendo como sede o Rancho do Peixe, point tradicional do kitesurf na região. A organização descreve o movimento como uma expansão da presença do festival no estado, não como uma estreia, o Ceará já concentra praias que se revezam como palco de etapas nacionais e internacionais ao longo da temporada de ventos.

As inscrições para as categorias competitivas fecharam em 10 de setembro, e a transmissão ao vivo das provas fica por conta da Web Surf Live, com replay em câmera lenta disponível no YouTube do festival, um detalhe que mostra o quanto a produção desses eventos já se aproxima da de esportes olímpicos consolidados, o que faz sentido: o kitesurf estreou no programa olímpico em Paris 2024.

Faz parte da programação também o Desafio Sertões Kitesurf, prova de entrada gratuita criada em 2022 justamente para dar chance a atletas que não têm como pagar a inscrição do evento principal, uma espécie de teste de meritocracia dentro do próprio festival, valorizando talentos locais ao lado dos nomes já consagrados do circuito.

Os números por trás do vento: R$ 1,66 bilhão

Enquanto o festival acontece no Preá, um levantamento da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur), divulgado pelo Diário do Nordeste, projeta que a temporada de ventos 2026 (que vai de julho a janeiro) deve movimentar R$ 1,66 bilhão na economia cearense, ante R$ 1,14 bilhão em 2024. O fluxo de visitantes também salta: são esperados 410 mil turistas em 2026, contra 297,5 mil em 2024, alta de 37,8%. Entre eles, o público que pratica kitesurf deve chegar a 213,2 mil pessoas, 46,2% a mais que os 145,8 mil registrados dois anos atrás.

O gasto médio por turista é de R$ 4 mil, com diárias individuais entre R$ 600 e R$ 900. Quem busca as travessias de downwind (viagens de vários dias acompanhando o vento pela costa) paga ainda mais: segundo Francesco Colletti, da Downwind Kite Safari, um pacote de 6 a 10 dias custa cerca de R$ 10 mil por pessoa. Cidades como Cumbuco, Guajiru, Icaraizinho de Amontada, Preá, Jericoacoara e Camocim dividem esse fluxo ao longo da rota conhecida como Costa dos Ventos. “Os esportes náuticos movimentam atletas e turistas, geram emprego, renda e oportunidades para comunidades”, resumiu o secretário de Turismo, Gustavo Montenegro, ao anunciar os números.

A segurança que corre atrás do crescimento

É aqui que a pauta ganha uma camada que a divulgação turística não costuma mostrar. Em agosto, a Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) promoveu uma audiência pública para discutir a regulamentação e a segurança da prática de kitesurf e wingfoil no estado. Reuniu, na mesma mesa, os deputados Guilherme Sampaio, João Jaime e Acrísio Sena, um promotor de justiça do Ministério Público do Ceará, representantes das secretarias de Turismo, Desenvolvimento Econômico e Esportes, a gestora estadual de Turismo do Sebrae, além de duas lideranças internacionais do esporte: Frédéric Béné, presidente da Organização Internacional de Kitesurf, e Jorge Wagner Ferreira Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Kitesurf.

O ponto central do debate foi a falta de qualificação de parte dos instrutores que atuam nas praias cearenses. “A pessoa que vai no instrutor e contrata uma aula é um consumidor, e ela precisa se reportar a alguém que entenda bem daquilo, para lhe garantir segurança”, resumiu um dos participantes durante a audiência. Está em tramitação na Alece o Projeto de Lei nº 25/2026, de iniciativa do governo do estado, que propõe regulamentar oficialmente a prática em praias, lagoas e corpos hídricos públicos cearenses, hoje uma atividade que cresce sem um marco legal específico que responsabilize quem ensina.

O contraste dos números ajuda a entender a urgência: se a temporada de ventos deve movimentar R$ 1,66 bilhão em 2026, o kitesurf sozinho já foi responsável por R$ 210 milhões da economia cearense em 2025, ano em que o turismo cresceu 7% no estado e 60% dos visitantes disseram ter vindo motivados por esportes de aventura ligados ao vento. É um setor grande demais, e crescendo rápido demais, para seguir operando só na base da boa vontade dos instrutores mais experientes.

Um retrato do momento do esporte no Brasil

Essa combinação (evento em cartaz, boom econômico documentado e regulamentação ainda em tramitação) não é exclusividade do Ceará. Como mostrei aqui no Popa ao cobrir o calendário de competições náuticas de setembro, o Brasil vive um momento peculiar em que modalidades como wing foil e kitesurf crescem em ritmo mais acelerado que boa parte da vela tradicional, muitas vezes fora do radar da cobertura esportiva convencional. O Festival GKC Velas Preá é um retrato em miniatura desse cenário: de um lado, atletas amadores e profissionais competindo lado a lado num dos points mais respeitados do país; do outro, um debate institucional que só está começando a tentar equilibrar crescimento econômico com responsabilidade sobre quem entra na água.

Vale registrar que a Costa dos Ventos não é fenômeno novo, o Ceará já é reconhecido internacionalmente há anos como destino de referência para quem pratica esportes de vento, com ventos alísios constantes entre julho e janeiro que atraem atletas de fora do país para treinar e competir nas mesmas praias que agora concentram o debate sobre regulamentação. A diferença, em 2026, é a escala: mais dinheiro, mais turistas, mais provas oficiais, e finalmente, uma proposta de lei tentando alcançar esse crescimento.

Perguntas frequentes

  • Onde acontece o Festival GKC Velas Preá 2026?
    Na Praia do Preá, no município de Cruz, litoral oeste do Ceará, tendo o Rancho do Peixe como sede principal.
  • Quais modalidades estão em disputa?
    Kite (Strapless Freestyle, Rally Cross e Big Air), Wingfoil Race (nas categorias brasileira e cearense), Canoas Tradicionais e o Desafio Sertões Kitesurf.
  • Por que o Ceará movimenta tanto dinheiro com esportes de vento?
    A chamada Costa dos Ventos tem ventos alísios constantes entre julho e janeiro, o que atrai praticantes e turistas do Brasil e do exterior; a Setur projeta R$ 1,66 bilhão em movimentação na temporada 2026.
  • O que propõe o Projeto de Lei nº 25/2026?
    De iniciativa do governo do Ceará, o PL propõe regulamentar oficialmente a prática de kitesurf e wingfoil em praias, lagoas e corpos hídricos públicos do estado, tema discutido em audiência pública na Alece em agosto de 2026.