Compilação de Marcos Wetzel da Rosa

Depois de dar os primeiros passos com um veleiro navegando no instinto, chega o momento de tirar um bom rendimento. Isto só é possível com uma boa regulagem, tanto de velas como de mastro.
Os barcos de cruzeiro são equipados com um tipo de aparelho básico, indispensável para se efetuar uma regulagem elementar nas velas. Isto equivale a podermos orientar as velas adequadamente em qualquer momento, mas sem recorrer aos complicados e por vezes sofisticados aparelhos que utilizam os veleiros de regata. De qualquer forma, a complexidade dos sistemas utilizados depende das dimensões do barco e do “bolso” do proprietário.

Naturalmente, há uma série de requisitos indispensáveis por mais modesta que seja uma embarcação à vela. O mais comum é encontrarmos um carro (traveller) de dimensões adequadas para trabalharmos a escota da vela grande e regular a tensão da valuma, ao mesmo tempo que controla a posição da retranca para barlavento ou sotavento. Também é habitual ter um “burro” para a retranca e um carro para a escota da genoa e por vezes um “cunningham” na vela grande.

REGULAGEM DO MASTRO

De pouco serviriam os nossos esforços para melhorar a regulagem das velas sem anteriormente regularmos corretamente o mastro. Por outro lado a primeira coisa a ser feita é comprovar que o mastro está direito e completamente vertical. Esta operação deve ser executada na marina, no respectivo lugar, sem nenhuma vela içada. Depois de folgar todos os brandais e no caso de existirem brandais volantes, verificarmos se o mastro está vertical, com a ajuda da adriça da vela grande, esta com uma ligeira tensão.
Observamos cuidadosamente o mastro desde a sua base, olhando até o topo com um olho fechado, para nos assegurarmos que não existem deformações e que o mesmo esteja na vertical, tanto no sentido proa/popa, como no sentido lateral.
Após, apertamos com boa tensão os brandais de tope. Se os mesmos ficarem demasiado folgados quando o barco estiver na orça perderemos o ângulo de orça e velocidade.
Feita esta operação, é a vez de tratarmos dos brandais de baixo(brandais de força). Sabemos que a tensão está correta quando estamos orçando e observamos que os brandais baixos de sotavento não ficam sem tensão até que o vento atinja força 4.
Finalmente, caçamos os brandais intermediários (isto em barcos maiores, com mais de uma cruzeta). Estes ficam, com um pouco menos de tensão que os de baixo, de maneira que os de sotavento, na orça, fiquem sem tensão nos ventos de força 3. Não podemos esquecer de caçar um pouco o baby-stay. Os brandais volantes e o back-stay são regulados durante a navegação, em função da velocidade do vento e da mareação.

A segunda parte da regulagem do mastro é conveniente se fazer navegando para podermos observar se o barco é sensível ao leme e o mastro está direito. Navegando em orça, devemos nos colocar ao pé do mastro e observar se há algum desvio lateral, nesse caso faremos pequenas regulagens, sempre depois de trocar de bordo porque somente é possível trabalhar nos brandais de sotavento. Se o barco tem um pouco de tendência a arribar, existe sempre a possibilidade de aumentar o estai real, colocando uma ferragem adicional na sua base ou caçar mais o back-stay resultando o mastro mais inclinado e ficando o barco mais nervoso. Temos que ter em conta que esta alteração obriga a repetir toda a operação de regulagem do mastro desde o início.

REGULANDO AS VELAS

As fitinhas na valuma da vela (tell tails) são uma grande ajuda para se afinar as velas corretamente, sendo muito importante nas velas de proa.
Quando estamos orçando sabemos que a vela está bem regulada no instante em que as fitas de sotavento e de barlavento encontram-se na posição horizontal, paralelas entre si e apontando em direção da popa. Se cair a de sotavento é porque arribamos em demasia, se cair a de barlavento pode ser que a vela esteja muito caçada. Se a fita de barlavento se levanta, está avisando que ou orçamos em demasia, ou podemos caçar mais a vela.
Com as fitas instaladas na testa da vela de proa, sabemos em todos os momentos se o nível de torção da vela é o adequado, ou seja, se as fitas da parte superior abanam enquanto as da parte inferior permanecem estáveis, é sinal de um provável excesso de torção, devido ao carro da escota se encontrar demasiado à popa, no caso contrário seria indicativo de se encontrar excessivamente à proa.
Também é importante regular a tensão da testa e da esteira da vela grande. Devemos manter a testa com a tensão necessária para evitar as rugas horizontais, sem exagerar, pois uma tensão demasiada forma rugas no sentido vertical junto ao mastro. Não podemos esquecer que a tensão na testa ajuda a controlar a bolsa da vela, pois com pouca tensão o saco desloca-se para a popa e a valuma tende a fechar-se, ao contrário, quando há mais tensão na testa, o saco desloca-se para a proa e a valuma abre-se.
Geralmente, com pouco vento, folga-se a testa e, quando o vento aumenta dá-se mais tensão na testa. Isto pode fazer-se simplesmente com a adriça da grande, mas se o vento aumenta muito é aconselhável usar-se um cunningham.
A esteira também deve ser regulada com a tensão adequada, com a finalidade de retirar as rugas verticais, mas sem exagerar para não provocar neste caso, rugas transversais. Devemos procurar um ponto de equilíbrio para ter bolsa na parte inferior da vela, mas isento de rugas. De uma forma genérica folgamos a esteira com vento fraco e damos mais tensão com ventos fracos.

REGULAGEM DA VELA GRANDE

Com a ajuda da escota da vela grande, regulamos o ângulo que forma a retranca com o eixo longitudinal do barco. Para isso é indispensável poder deslocar o carro da escota da vela grande no sentido bombordo estibordo. Deste modo é possível controlar o ângulo da retranca e a tensão na valuma da vela, especialmente na orça.
Orçando com ventos fracos, deve-se levar o carro ligeiramente para barlavento, com a escota folgada de forma que a retranca fiqquesobre o eixo do barco. O que se deseja é que a vela tenha um saco maior, para obter melhor potencia.
Se o vento é moderado, o carro da escota deve ficar no centro da barra e caçarmos a escota de forma a achatar a vela.
À medida que o vento enfraquece, vamos deslocando o carro da escota para sotavento, mantendo a vela sempre bem caçada. Desta forma orça melhor, reduz a inclinação e diminui a tendência de entrar em orça. A escota vai influenciar a torção da vela, estando bem visível na abertura da valuma.
Na afinação da vela grande devemos dar atenção ao “burro”, que serve basicamente para reduzir o saco da vela, principalmente nos ventor largos (popa, través, alheta), ou seja, com ele evitamos que a retranca suba quando folgamos a escota. Caçando moderadamente o “burro” reduzimos a torção na parte superior da vela, o que nos ajuda quando navegamos com ventos relativamente fortes.

AFINAÇÃO DAS VELAS DE PROA

A primeira providência para se obter uma boa regulagem das velas é garantirmos que exista um bom equilíbrio entre a superfície vélica do triangulo de proa e da vela grande. Isto às vezes é difícil em um barco de cruzeiro, pois com a comodidade do enrolador de genoa, muitas vezes se diminui excessivamente o pano de proa, pois a relativa dificuldade em rizar a vela grande, nos faz atrasar esta decisão, sendo a causa mais freqüente de desiquilibrio.

O segundo passo é colocar devidamente o carro da escota da genoa, o qual é decisivo para se obter um bom rendimento da vela de proa. Graças a este carro podemos variar o ângulo de tração da escota, em função das diferentes dimensões da vela de proa em utilização, ou da área da genoa de enrolar com que navegamos.
Inicialmente devemos colocar o carrinho de forma que ao caçarmos a vela, a esteira e a valuma recebam a mesma tensão. Quando o carro está muito para a popa, a esteira suporta mais tensão e a valuma abre e bate.
Ao contrário, se o carro está muito para a proa, a valuma suporta mais tensão e a esteira forma um grande saco.
Imaginando a bissetriz que forma a valuma e a esteira, encontramos uma linha teórica, que deve seguir a escota da genoa para esta trabalhar corretamente.
Ao passar de uma orça para um rumo mais folgado em relação ao vento, a torção da vela de proa aumenta consideravelmente, ao mesmo que a tensão na valuma diminue. É o momento de deslocarmos o carro para a proa e, se possível com a ajuda de uma patesca, deslocar o ponto de escota para o exterior, abrindo o mais possível o angulo da vela.
Muitas velas de proa e também velas grandes, vêm com um cabo no inteior da valuma para sua regulagem. Com este cabo pode-se eliminar o ligeiro bater de uma valuma, mas deve ser folgado quando o vento cai, ou sempre que arriarmos ou enrolarmos uma vela.

O BACK-STAY

Quase todos os velejadores de cruzeiro sabem que quando um barco permanece no cais o back-stay deve ficar folgado para aliviar a tensão na mastreação, que deve estar com mais tensão na orça e menos em mareações abertas e, que sua tensão deve ser aumentada ou diminuída em função direta da intensidade do vento. A maioria dos barcos de cruzeiro apresentam mastreação a tope, de forma que o back-stay atua diretamente sobre o estai, tendo como conseqüência que podemos regular a tensão do gurutil da vela de proa.
Dando tensão no back-stay diminuímos a curvatura do estai, obtemos uma vela de proa mais plana, com uma bolsa menor e uma valuma mais aberta. Estas condições são as mais adequadas para se obter um melhor ângulo de orça.
Folgando o back-stay damos mais bolsa à vela de proa, aumentamos a curvatura do estai e deslocamos a bolsa para a popa. O resultado é uma vela mais potente e para ângulos mais abertos em relação ao vento.

ANOTE

  • Antes de começar a regulagem das velas, é necessário regular o mastro;
  • Dando tensão no burro, evitamos que a retranca suba quando folgamos a escota da vela grande;
  • 
Dando mais tensão no back-stay ficamos com uma vela mais plana, com uma bolsa menor e a valuma mais aberta;
  • 
Os tirinhas são necessários para uma boa regulagem das velas.

 

Observação: estas considerações foram compiladas e resumidas de vários livros e revistas náuticas e espero sinceramente estar colaborando com os colegas velejadores que estão iniciando e até mesmo com os velhos lobos do mar.
Bons ventos,

Comandante Marcos Wetzel da Rosa

Veleiro KAILUA

Veleiros Saldanha da Gama-Pelotas-RS

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