Barco Seival
O completo relato da grande epopéia por águas gaúchas 
por Augusto Chagas

Aí vai um presentão do Comandante Augusto Chagas Gaudério, do Veleiros do Sul, aos visitantes do Popa. Certamente é o mais completo relato da história da navegada de aproximadamente 300mn do Seival, o veleiro em que foi protagonizada a maior façanha náutica da Revolução Farroupilha, em 1839. [Popa, 12 Set 2006]
Foto de 05 de julho de 1908, em Laguna, pelo farmacêutico Tácito Pinho

Muito temos ouvido falar do barco Seival, mas nunca encontramos um relato específico a respeito dele e de suas viajadas.

Primeiro o nome:
Seival – arroio afluente do Candiota, no município de Bagé, onde se travou um dos mais sangrentos combates da Revolução Farroupilha com derrota e fuga das forças imperiais.

O Estaleiro:
No delta do Rio Camaquã, na Fazenda do Brejó que pertencia à Dona Antônia Joaquina da Silva, irmã de Bento Gonçalves. Nos galpões abandonados de uma velha charqueada o Governo Republicano mandara edificar um pequeno estaleiro para construir embarcações com a finalidade de controlar as águas internas. Este local era considerado estratégico devido à baixa profundidade que não permitiria aos navios de guerra do Império que patrulhavam essas águas se aproximarem muito da costa.

A construção:
John Griggs, um norte-americano era o mestre encarregado de fazer funcionar o estaleiro. O trabalho era penoso, a madeira vinha dos matos adjacentes trabalhando nela quatro carpinteiros locais, o ferro era forjado penosamente ali mesmo, fornecendo a própria fazenda a cordoalha de couro trançado e os cabos de cizal necessários para armar os barcos.

Garibaldi sentiu logo que com os recursos que tinha seria muito demorada a construção. Conseguiu que o governo enviasse alguém à Montevidéu para buscar ajuda. De lá veio Carniglia, carpinteiro naval com equipe de mestres e operários. De Montevidéu vieram também alguns marinheiros que somados a outros tantos das redondezas formaram uma tripulação heterogênea de setenta homens ao todo.

Com esse auxílio extra em pouco mais de dois meses conseguiram construir dois lanchões, aos quais deram nomes que evocavam vitórias Farroupilhas, ao maior de 18 toneladas deram o nome de RIO PARDO cujo comando seria de Garibaldi. O segundo, de 12 toneladas era o SEIVAL, comandado pelo irlandês John Griggs chamado pelos brasileiros de João Grandão.

Lançamento:
Na primeira semana de maio os barcos foram lançados e durante nove dias andaram pela lagoa à procura de presas. Finalmente nas alturas de Cristóvão Pereira encontraram a sumaca Mineira e o patacho Novo Acordo. Após um único tiro abordaram a Mineira mas o Novo Acordo conseguiu fugir.

A presa foi encalhada e sendo dividida sua carga conforme carta de corso que Garibaldi tinha. Em resposta a esse ataque o governo federal mandou para a Lagoa, sob o comando do inglês almirante Grenfell quatro navios de guerra.
Não era fácil apanhar os rebeldes que conheciam todas as alagadas, bancos e alfaques da costa. Eram guerrilheiros que, inclusive levavam a bordo cavalos, mostrando a mesma competência no manejo das rédeas, cabrestos e boleaderas que a poucos momentos demonstraram nas escotas, adriças e leme dos lanchões.

Quando perseguidos pelos imperiais chegavam a um banco o brado era: “ À água, patos”. Todos pulavam n’água, inclusive Garibaldi e metendo os ombros no barco cruzavam para o outro lado.
Esta guerrilha náutica terminou quando o Governo Farroupilha resolveu atacar Laguna usando esta pequena frota como apoio.
O governo imperial preocupado com os acontecimentos nas águas internas resolveu destruir os estaleiro no delta do Camaquã, retomar o forte de Itapuã e o do Junco.

Contando com uma frota numerosa foi fácil retomar esses redutos mas, o mesmo não acontecendo com a idéia de capturar Garibaldi que, conhecendo bem a lagoa, passou por cima do banco das Desertas, entrou na Lagoa do Casamento e foi se esconder dentro do Arroio Capivari, acima da lagoa do mesmo nome a duas milhas da sua foz.

Camuflaram os mastros com a vegetação abundante das margens e começaram a executar o que estava planejado, construir duas carretas para os barcos e leva-los até Tramandaí. Enquanto o General Canabarro requisitava na região, em segredo, duzentos bois de canga, Garibaldi reunia o material necessário, principalmente cordoalha e madeirame de embarcações apreendidas. As rodas seriam de madeira, com 3,20 metros de diâmetro e, acredita-se, cerca de 40 centímetros de largura.

As margens do arroio foram aplainadas e os eixos e rodas submergidos sob os cascos para montarem o que seria uma carreta. Levaram dois dias nessa tarefa, quando acharam que estava tudo pronto atrelaram 16 juntas de boi e tentaram começar a viajada. Não deu certo e quase virou o barco. Finalmente no dia 05 de setembro de 1839 conseguiram tirar os barcos d’água e começar o transporte por terra.

Agora um parêntesis: vamos imaginar que tenhamos que retirar do arroio Araçá o barco Virgínia tão bem cuidado pelo marinheiro Waldir do nosso clube (Veleiros do Sul). Sem maquinária nenhuma, em cinco dias, projetar e construir uma carreta, amarrar em baixo do barco e puxar para fora d’água, ainda por cima escondidos e preocupados com o aparecimento de forças inimigas.

A viagem por terra na distância de 54 milhas até a Lagoa Tomás José durou seis dias. Lá chegados tiveram que preparar o terreno para recolocarem os barcos na água, reequipar os mesmos, inclusive com as armas pois tinha retirado tudo o que era possível pára alivia-los de peso durante a viajada.

Os números parecem muito grandes mas, por exemplo, 200 bois de canga não era mais do que três mudas de bois. 16 juntas em cada barco perfazem 64 bois usados de cada vez, imagino o número de pessoas envolvidas.
Três dias após chegarem a Tramandai as âncoras foram içadas e os barcos entraram no mar. Entraram pela barra do Tramandai. Hoje, com a barra fixada, tenho visto os barcos da Petrobras com dois motores, fundos chatos e hélices em túneis sofrer para vencer as ondas e baixios e conseguirem atingir um fundo navegável. Não posso imaginar como fizeram isso esses dois barcos, um de 12 toneladas e outro de 18, somente a força de braços e velas.

A alegria de estar velejando no mar durou pouco, pois entrou um pampeiro que acabou fazendo o Rio Pardo ir a pique próximo a Araranguá. Quando Garibaldi conseguiu chegar na praia, perto da Pedra do Campo Bom, contou sua tripulação e viu que tinha perdido 16 marujos dentre eles companheiros italianos de muitas jornadas.
Sem perda de tempo prosseguiram a pé tentando se reunir na Barra do Camacho com as forças revolucionárias que estavam indo atacar Laguna.

O Seival com John Griggs no comando, talvez por ser um barco mais marinheiro conseguiu se safar e continuou velejando. Resolveram entrar em Laguna pela pequena barra do Camacho o que, acho, milagrosamente conseguiram.
Quando Garibaldi e seus homens chegaram a esta barra o Seival já tinha entrado.

Com o auxilio de um prático local o barco seguiu, com Garibaldi também a bordo pelo tortuoso arroio até chegar a Laguna. Os imperiais mantinham no morro da Glória sentinelas permanentes instruídos para controlarem a barra em direção ao mar pois, pelo rio Tubarão, achavam, só baleeiras podiam navegar. A flotilha imperial era composta dos vasos de guerra Imperial Catarinense, Sant’Anna e Lagunense, de dois lanchões e mais a escuna Itaparica e o brigue Cometa.

As tropas farroupilhas atacaram por dois lados e de repente surge o Seival na boca do rio Tubarão e ataca a nave imperial Sant’Anna. Instala-se o pânico nas fileiras imperiais, José de Jesus, comandante da Imperial Catarinense sentindo a derrota próxima manda incendiar seu barco causando ainda mais confusão.
Numa decisão que o levaria à corte marcial o coronel Vilas Boas dando tudo como perdido ordenou retirada. O barco Cometa conseguiu fugir levando para o Desterro (Florianópolis) a notícia da derrota.

Dois dias depois os farroupilhas tomavam de vez a vila. O governo imperial ciente de que não deveria deixar os revolucionários saírem da barra de Laguna postou em sua entrada o patacho Desterro, fortemente armado.
Garibaldi mandou uma lancha sair rumo sul e o Desterro saiu em perseguição, dando-se conta tarde que tinha sido enganado.
O Seival, agora com Anna Maria de Jesus Ribeiro a bordo, depois conhecida como Anita Garibaldi, mais os barcos Caçapava e Rio Pardo (provavelmente a Itaparica rebatizada) aproveitaram a oportunidade saíram barra a fora, navegando toda a noite rumo SE para se afastarem bem da costa.

Aqui cabe uma nota sobre Anita, era casada na época e estava com apenas 18 anos…
Os três barcos foram até as alturas de Santos a procura de presas mas depois, aproveitando a mudança de vento rumaram de novo para o sul. O comandante do Desterro foi chamado ao Rio de Janeiro, também, para responder Conselho de Guerra.
Para o governo imperial encontrar os piratas ficou sendo uma questão de honra.

A corveta Regeneração vasculhava a área entre Santos e Paranaguá e às 16:30 horas de 28 de outubro, perto da Ponta da Juréia avistou o inimigo disparando seus canhões de proa contra o retardatário. Durante a noite o barco da marinha ficou ao largo retornando a perseguição ao amanhecer. Por sorte uma forte rajada de SO rasgou algumas velas da corveta que teve que voltar para Santos.

 

Aproveitando o espaço os 115 tripulantes dos três barcos ancoraram na Ilha do Bom Abrigo em busca de provisões. Saindo dali capturaram a sumaca Elisa e o iate Formiga.
No amanhecer do dia dois de novembro navegando numa boa empopada, próximo à ilha de Santa Catarina, encontraram o patacho inimigo Andorinha armada com sete canhões. O Rio Pardo tinha apenas uma. Garibaldi atacou enquanto os outros barcos iam para Imbituba. Trocaram tiros, com muitas viradas de bordo, durante duas horas mas, com aquele vento forte, a pontaria não era boa havendo poucos estragos.

Indo para Imbituba Garibaldi retirou o canhão do Seival e o colocou no morro, trabalhando a noite toda.
De manhã foram atacados pelos imperiais em três barcos, o brigue Andorinha, o patacho Patagônia e a escuna Bela –Americana. Com a parada do vento sul e com um terral puxador assoprando os barcos podiam fazer bordos curtos e bombardear a vontade de diversos ângulos.

Não se sabe por que motivo os imperiais abandonaram o ataque no dia seguinte.
Aproveitando Garibaldi despachou os feridos por terra saindo de noite e só sendo descoberto depois que já havia entrado em Laguna.
Os imperiais resolveram atacar com tudo o que tinham, por terra e por mar. Em 15 de novembro o Almirante Mariath bloqueou a barra com nada menos que 13 embarcações diversas que tirando vantagem da maré e do vento se colocaram em boa posição disparando canhões e fuzis à vontade.

Garibaldi mandou Anita pedir reforços para Canabarro com ordem de lá permanecer. Pouco depois volta Anita em pé no bote com dois remadores assumindo pessoalmente o transporte dos feridos e da munição. Fez ao todo 12 viagens.
Três horas depois termina a batalha. Os republicanos tinham perdido 69 homens inclusive todos os oficiais. Os barcos republicanos foram quase todos queimados e o Seival abordado pela Bela-Americana porém, sem encontrar ninguém à bordo.

O Seival foi encalhado e mais tarde posto a flutuar transformado em iate mercante como nome de Garrafão.
Navegou muitos anos como mercante, acabando seus dias encalhado em uma praia em Laguna. Em 1916, quando ia ser restaurado por historiadores italianos foi queimado.

Em 1945 foi encontrada uma figueira nos restos da quilha do Seival, a qual foi transplantada para uma praça ficando conhecida como Árvore de Anita.
No nosso clube (Veleiros do Sul) temos uma muda desta árvore lembrando o Seival e homenageando esta incrível epopéia.

Augusto Chagas, Outubro 2002

 

Esta matéria foi originalmente publicad em 12 set 2006, no Popa.com.br

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