Velejando a noite, com incêndio a bordo.
Cmte Geraldo Sperb
Há histórias que, mesmo sem termos vivido diretamente, se tornam tão vívidas que parecem tatuadas na nossa memória. Esta é uma delas. Um episódio marcante, que me foi contado com tamanha riqueza de detalhes e emoção, que até hoje carrego como se tivesse estado naquele convés, sentindo o vento noturno e, de repente, a odor inconfundível da fumaça com fogo queimando.
Era meados de 1963. Eu estava no Clube Náutico Veleiros do Sul, quando recebi um convite para completar a tripulação de um veleiro com trinta pés, chamado Rebelde (antigo Maracaibo) inscrito na regata Porto Alegre–Rio Grande. Por compromissos já assumidos, declinei do convite, mas sugeri que meu irmão, Frederico Sperb, fosse em meu lugar: A bordo,com uma tripulação experiente e animada. Comandada por Newton Barreto, velejador e também aviador.
Junto estavam , general da reserva Nélson Furtado e o amigo Rolando Alencar.
Era verão, céu limpo, lua cheia brilhando sobre as águas do Guaíba. velas prontas para serem içadas, e o barco, repleto de entusiasmo.
A regata prevista com largada para início da noite de uma sexta-feira enluarada, com previsão de chegada à Cidade do Rio Grande na entrada do canal da Feitoria, entre sábado e domingo.
Chegada a hora, o Rebelde estava pronto: tanque cheio de combustível, despensa abarrotada de comidas e bebidas. Soltaram-se as amarras, recolheram-se as defensas e a competição rumo a Rio Grande teve início.
O Rebelde, de pouco calado e lastro, não se dava bem navegando contra o vento, mas com través ou de popa singrava veloz. A noite estava clara e quente, o sudeste soprava forte, fazendo o barco cortar as ondas com violência, adernando a ponto de mostrar parte do casco abaixo da linha d’água. Toda a tripulação estava no convés, equilibrando-se na borda.
A lua cheia iluminava o rio com brilho prateado. até aí tudo bem Mas, ao passarem pela Ponta Grossa, as ondas cresceram e o vento endureceu. Seria o momento certo de trocar a “genoa um” por uma vela menor — o que não foi feito.
Com o barco adernado no limite e o tanque cheio demais, aconteceu o pior: pelo suspiro, a gasolina começou a vazar e escorrer para o fundo do casco, na sentina próximo ao motor.
Já próximos da Ilha Chico Manoel, o vento aumentou ainda mais. A genoa não resistiu e rasgou exatamente no momento da virada de bordo — manobra difícil, com orça apertada e ondas fortes pela proa. A solução foi ligar o
motor para auxiliar na troca da vela de proa por uma menor. Em regata, em situação de emergência, era uma decisão válida.
O comandante acionou a ignição. Bastaram alguns giros: surge uma faísca de algum fio desencapado encontrar-se com o combustível derramado. – Foi o início do fogo
Em geral todo incêndio começa pequeno, com uma chama que pode ser abafada facilmente.
Mas desta vez, não houve chance.
Ao primeiro sinal de fumaça, soou o grito desesperado:
— Fogo a bordo! O extintor! Rápido, o extintor!
Frederico desceu correndo à cabine, agarrou o extintor — e aí veio a pior surpresa: o equipamento estava inoperante. Nenhum jato. Nenhum chiado. Apenas o som seco do desespero. As chamas ganhavam corpo.
— Está vazio! — gritou, voltando apavorado para o convés.
O único extintor a bordo estava descarregado. Inútil como arma sem munição.
A fumaça dominava o interior do barco. Rolando tentou buscar os salva-vidas, mas já era tarde demais: Estavam sendo consumidos pelo fogo.
Restava improvisar com baldes d’água. Mas gasolina não se apaga com água. As chamas se multiplicaram. As portas do inferno pareciam abertas dentro do veleiro. Agora, a prioridade era sobreviver.
O convés de madeira queimava sob os pés. Jogavam água com o único balde disponível, na tentativa de resfriar tanto o piso quanto molhando as velas e as adriças, na esperança de retardar o fogo. O suor brilhavam em rostos iluminados pela lua, demonstrando medo — mas não havia pânico. Havia garra, esforço sobre-humano, como se a vida de cada um dependesse da coordenação silenciosa daquele grupo.
O sopro forte das rajadas do sudeste, tornava impossível rumar orçando contra o vento para a margem mais próxima, apenas três quilômetros a leste. A única alternativa foi arriscar velejando de vento em popa, uns dez quilômetros a oeste, . Seria mais demorado, mas menos mortal: se conseguissem manter as velas molhadas , havia chance de alcançar alguma praia antes que as estruturas fossem destruídas pelo fogo, os obrigassem a se lançar às águas escuras, sem coletes, queimados e exaustos.
E assim aconteceu , naquela noite sob a luz da lua cheia, o Rebelde navegava — valente, em chamas, e ainda velejando.
Com todo o pano da mestra em cima e a genoa rasgando e panejando .estavam aproveitando o máximo do vento para chegar rapidamente na costa, antes que o fogo chegasse nas velas ou pegasse no casco de madeira ai sim era o fim.
Foram algumas horas velejando com dificuldade pois o vento além de forte também rondava e o fogo crepitava rápido mas o tempo não passava, parecia uma eternidade.
Quando Finalmente aproximaram -se da costa rumaram para entrarem praia a dentro, parando quando a proa do barco já estava quase totalmente sobre areia.
TÃO RÁPIDO COMO O VIRAR DE UMA PÁGINA,
os quatro deixam de serem protagonistas para serem plateia e assistirem
NA CALMA DE UMA PRAIA DESERTA O encerramento da saga num Gran Finale de um incêndio que se extingue em meio a cinzas e carvões em brasas.
O que restou dos 30 pés do veleiro Rebelde foi a parte do fundo do casco que mais parecia uma grande canoa carbonizada.
Perda TOTAL
Frederico, o mais jovem é escalado para buscar socorro. .
Sem conhecer a região foi andando por entre pedras atravessando uma vegetação espessa e ao contornar uma grande barranco, depois de uma longa caminhada, escutou um ronco de motor que lhe pareceu ser de um trator.
Por sorte com clarão da lua cheia , estava caminhando sobre uma trilha em direção ao ronco de um motor.
Mais adiante viu por entre as arvores que havia uma luz, ao chegar próximo notou que era um velho Jipe tentando sair de um atoleiro.
Ao deparar-se com Frederico o homem que estava no veiculo tomou um susto, mas logo se acalmou ao ouvir a historia do barco incendiado.
Com a ajuda do Frederico deu safar o Jipe do atoleiro e assim ganhou uma carona para a cidade mais próxima, BARRA DO RIBEIRO.
De lá em ônibus de linha chegou em P. Alegre com a má noticia o incêndio do Veleiro “ Rebelde”, felizmente com o restante da tripulação a salvo porem no escuro sem lanterna, sem comida no escuro de uma praia deserta, aguardando pelo resgate
Passaram-se meses e nas reuniões de fim de semana ainda era o assunto do dia, o incendio do Rebelde.
O surpreendente foi a decisão de Newton Barreto, quando falou em reconstruir o Rebelde,
-O Barreto deve estar sonhando, O que sobrou foi o casco carbonizado e a quilha e que está queimada
– POIS VOU COMEÇAR PELA QUILHA e com os planos originais do projeto – Retrucou o Comandante
e foi assim, Partindo das sobras não queimadas e da quilha,que Newton Barreto, reconstruiu, o que parecia um sonho virou numa bela realidade.
Passado mais de sessenta anos, quando vejo o mesmo barco soberbo velejando, me vem na lembrança
O comandante não é apenas o proprietário de um barco à vela. É também o guardião de uma tradição, aquele que cuida, preserva e mantém viva a paixão pela navegação — para que as futuras gerações também possam se encantar e se realizar com a arte de velejar.”
.
Os nomes foram trocados e os comandantes tambem são outros, mas o barco continua o mesmo.
Maracaibo – Gilberto Venturela
Rebelde – Newton Barreto
Leticia – Cipriano Penter
Bruma – Astelio e Barbachan
Bito – Eduardo, Vinicius Magalhães
Foi mais do que uma aventura , um drama no palco da vida, como uma peça de teatro que não teve ensaios. Por isso para os atores valeu cada minuto vivido e antes que a cortina se fechar serem aplaudida de pé.
Newton Barreto, Frederico Henrique Sperb, Nelson França Furtado e
Rolando .
Não mais estão entre nos, provavelmente velejando pelo traves das lembranças de seus amigos.
A operação de resgate, envolveram dois socios do VDS com suas lanchas , primeiro foi Rubens Falkembach,acompanhado por Frederico devido a pouca visibilidade na madrugada. Não Tiveram exito e retornaram ao clube.
Mais tarde já no amanhecer, na lancha de Adroaldo Rosa junto com Frederico localizam a a tripulação ilesa , junto a o que restava do Rebelde.
A vida é uma peça única, sem ensaios e sem reprises. Porque, no fim, quando a cortina se fechar, que venham os aplausos — por uma história vivida com coragem, paixão e verdade.” �
Geraldo Sperb
Velejador , pesquisador ligado ao meio ambiente , pres. conselho delib. Sociedade Amigos da Marinha SOAMAR




















