Em setembro de 2026, uma cena rara tomou conta da orla do Rio de Janeiro: baleias no litoral do Rio de Janeiro apareceram com uma frequência que nem os pesquisadores mais otimistas esperavam. No dia 4 de setembro, uma baleia-franca-austral de cerca de 15 metros e 40 toneladas foi flagrada saltando a menos de 50 metros da areia da Praia do Leblon, em águas de apenas 6 a 8 metros de profundidade. Cinco dias depois, a cena já havia viralizado no Brasil inteiro — e, para quem navega na Baía de Guanabara e na orla carioca, o episódio é mais do que uma curiosidade de feed: é um sinal de que a rotina na água mudou.

Acompanho a movimentação náutica há tempo suficiente para saber que esse tipo de registro não é só sorte de quem estava com o celular na mão. É o resultado de décadas de proteção a uma espécie que já esteve à beira do desaparecimento na costa brasileira — e que agora reaparece justamente onde a cidade e o mar se cruzam com mais tráfego de embarcações.
Uma baleia de 40 toneladas a 50 metros da areia
O episódio do Leblon, registrado na tarde de sexta-feira, foi identificado pelo Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), como uma baleia-franca-austral (Eubalaena australis) — espécie que pode chegar a 17 metros e 60 toneladas. Segundo a explicação técnica repassada pelo laboratório, indivíduos juvenis ou machos adultos em trânsito “exploram com frequência enseadas costeiras mais ao norte em busca de águas calmas e menos povoadas por competidores territoriais”, o que ajuda a entender por que um animal reprodutivamente ligado à Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca — que cobre principalmente Imbituba e Garopaba, em Santa Catarina — decidiu se aventurar até a Zona Sul carioca.
Não foi um caso isolado. Levantamento publicado poucos dias depois mostra que a temporada 2026 se estendeu de abril a setembro e reuniu avistamentos na Baía de Guanabara, em Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Flamengo, Botafogo e Arpoador — um raio muito mais amplo do que o habitual. Entre os destaques da temporada, três filhotes de baleia-jubarte nasceram na região em 2026, um deles registrado com apenas dois dias de vida.
Da beira da extinção a 35 mil indivíduos: a curva que sustenta o fenômeno
O que está por trás da explosão de registros não é acaso nem um episódio climático pontual: é uma curva de recuperação populacional que vem sendo construída desde os anos 1980. Segundo dados de censo de 2025 citados por pesquisadores que acompanham a espécie no país, a população de baleias-jubarte no Brasil somava menos de 2 mil indivíduos na década de 1980 — cenário de quase colapso após décadas de caça comercial — e hoje é estimada em cerca de 35 mil animais.
Pedro Fróes, coordenador do Projeto Baleia Jubarte, e Rafael Carvalho, do Maqua/UERJ, apontam esse crescimento populacional como o principal motor por trás da expansão das áreas de ocorrência: com mais indivíduos disputando espaço nas rotas migratórias e nas áreas de alimentação e reprodução tradicionais, populações jovens e machos em trânsito passam a explorar regiões historicamente menos usadas — caso da orla carioca e da própria Baía de Guanabara. Ricardo Gomes, do Instituto Mar Urbano, soma a isso um fator local: melhorias observadas na qualidade da água da baía, que tornam a região um pouco mais hospitaleira para a passagem desses animais do que era há alguns anos.
Vale registrar o contraste com o histórico recente: em agosto de 2020, o próprio Rafael Carvalho já comentava, à época de um avistamento perto da Barra da Tijuca, que ver uma baleia-franca na costa do Rio “acaba sendo menos esperado”, e que o último episódio antes daquele datava de 2019. Ou seja, o que em 2019-2020 era exceção rara virou, em 2026, um padrão recorrente ao longo de uma temporada inteira — a métrica mais concreta de que a recuperação da espécie avançou.
Por que isso importa para quem está na água
A maior parte da cobertura sobre o fenômeno tratou o assunto como curiosidade turística — e de fato é bonito ver uma baleia saltando a poucos metros da praia. Mas, para quem tira o barco da marina ou sai para pescar na Baía de Guanabara, o recado é outro: mais baleias circulando em rotas de tráfego náutico intenso significa mais risco de aproximação acidental, e a legislação sobre o tema não é opcional.
A Lei Federal nº 7.643/1987 e a Portaria do Ibama nº 117/1996 estabelecem distância mínima de 100 metros entre embarcações e cetáceos como baleias, golfinhos e botos — regra que vale tanto para lanchas e veleiros quanto para barcos de pesca e de passeio, com engajamento de propulsão preferencialmente reduzido ou neutro quando o animal está próximo. Colisões entre embarcações e baleias já aconteceram na Baía de Guanabara no passado, sem vítimas graves registradas, mas com danos ao casco e sustos reais para quem estava a bordo — motivo suficiente para reforçar a vigilância visual em áreas onde os avistamentos aumentaram, especialmente ao entardecer e em dias de menor visibilidade.
Como já mostrei aqui no POPA em outro relato sobre encontros com baleias, a emoção de cruzar com um desses animais no mar é real, mas pede postura: reduzir a velocidade, manter distância, nunca cercar o animal e dar prioridade absoluta à passagem dele. Em uma cidade onde a baía volta a receber esses visitantes com regularidade, esse tipo de cuidado deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina de quem navega.
Perguntas frequentes
Por que baleias-francas estão aparecendo no Rio de Janeiro, e não só em Santa Catarina?
Porque a área de reprodução principal da espécie no Brasil segue concentrada na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, entre Imbituba e Garopaba (SC), mas o crescimento da população total empurra indivíduos jovens e machos em trânsito para enseadas mais ao norte, incluindo a costa carioca, em busca de águas calmas.
Qual a distância mínima que uma embarcação deve manter de uma baleia?
A legislação brasileira (Lei nº 7.643/1987 e Portaria Ibama nº 117/1996) exige no mínimo 100 metros de distância entre qualquer embarcação e cetáceos como baleias, botos e golfinhos.
A temporada de baleias no Rio de Janeiro tem uma data certa?
Em 2026, os avistamentos se estenderam de abril a setembro, com concentração maior entre junho e agosto — período mais amplo do que o observado em anos anteriores, quando os registros na costa carioca eram esporádicos.
Quem posso avisar se avistar uma baleia próxima ao meu barco?
Pesquisadores de projetos como o Maqua/UERJ e o Projeto Baleia Jubarte costumam reunir relatos de avistamento da comunidade náutica para mapear rotas e comportamento da espécie — vale registrar local, horário e, se possível, foto ou vídeo a distância segura.
















