Amanhã, 20 de setembro, uma expedição científica brasileira larga de Fortaleza rumo a uma das regiões mais desconhecidas do planeta: os abismos do Atlântico Equatorial, entre o Nordeste brasileiro e a costa da África. A missão batizada de “The Gap”, segundo reportagem da Agência Brasil, vai passar mais de um mês mapeando a Zona de Fratura Romanche, uma cordilheira submarina de cerca de 1.000 quilômetros de extensão que corta o oceano em profundidades de até 4.500 metros, e que abriga, no chamado Vema Deep, o ponto mais profundo de toda a Dorsal Meso-Atlântica, com 7.856 metros.

Para quem navega, esse tipo de expedição costuma passar despercebido: não envolve regatas, recordes de velocidade nem embarcações de luxo. Mas é exatamente esse tipo de ciência que, décadas depois, molda cartas náuticas, define áreas de proteção ambiental e explica fenômenos que sentimos na superfície, como correntes, ressurgências e mudanças na temperatura do mar. Acompanhei o anúncio com atenção porque ele reúne tecnologia naval de ponta, ciência séria e uma pergunta simples: o que existe no fundo do Atlântico que ainda não sabemos?
A resposta, por enquanto, é quase nada. Segundo o pesquisador José Angel Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que lidera a expedição ao lado da professora Kerry Howell, do Plymouth Marine Laboratory, no Reino Unido, cerca de 70% da crosta terrestre está debaixo d’água, em regiões de mar profundo, e os cientistas conhecem, hoje, menos de 1% desse território. É um contraste que costumo lembrar sempre que alguém comenta que “já mapeamos tudo” no planeta: a superfície da Lua está melhor documentada do que boa parte do assoalho oceânico.
Uma equipe internacional a bordo de um navio de pesquisa de ponta
A expedição reúne 25 especialistas de cinco nacionalidades a bordo do R/V Falkor (too), navio de pesquisa operado pelo Schmidt Ocean Institute, organização sem fins lucrativos que cede embarcação e equipamentos para expedições oceanográficas ao redor do mundo, com a condição de que todos os dados coletados sejam disponibilizados publicamente. Do lado brasileiro, participam cinco professores (dois da Univali e um cada da USP, da UFRGS e da UFES), sete estudantes de pós-graduação e um pesquisador, além da tripulação do navio.
O instrumento central da missão é o SuBastian, um veículo operado remotamente (ROV) capaz de descer até 4.500 metros de profundidade, equipado com câmeras e braços mecânicos para coletar amostras do fundo do mar. A ele se somam um submarino autônomo, usado para mapeamento de alta precisão em escala centimétrica, e uma sonda acústica, responsável pelo primeiro levantamento topográfico da região. Segundo Perez, boa parte das operações será transmitida ao vivo pela internet, uma experiência que ele próprio descreve como inédita e, em suas palavras, “muito gratificante”, por permitir que qualquer pessoa acompanhe em tempo real o que está sendo descoberto a quilômetros de profundidade.
O que a ciência quer entender na Zona de Fratura Romanche
O foco científico da expedição é mapear a relação entre a ressurgência equatorial (o fenômeno em que águas profundas, mais frias e ricas em nutrientes, sobem à superfície) e as comunidades de vida que habitam o fundo do mar nessa faixa do Atlântico. A área atravessa a Dorsal Meso-Atlântica, a cadeia de montanhas submarinas que separa as placas tectônicas americana e africana, formando um mosaico de montes, vales e paredões rochosos que funciona como um verdadeiro laboratório de biodiversidade ainda não catalogada.
Os dados coletados vão alimentar o Programa Desafio 150, iniciativa ligada à Década do Oceano das Nações Unidas que busca justamente preencher essas lacunas de conhecimento sobre o mar profundo. Um dos objetivos práticos é reunir evidências suficientes para que trechos da Zona de Fratura Romanche possam ser formalmente classificados como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis, uma categoria que, se confirmada, pode restringir atividades como pesca de arrasto e mineração submarina na região. A equipe também vai investigar os efeitos da acidificação do oceano sobre recifes de profundidade, um tema que ganhou urgência nas últimas semanas: dados recentes apontam que a temperatura média dos oceanos chegou a 21,07°C em setembro, um novo recorde que amplia os riscos para ecossistemas marinhos e para a própria economia costeira.
O cronograma é longo: o navio deve chegar à área de estudo por volta de 25 de setembro, permanecer em operação até o fim de outubro e desembarcar em Gana, na costa oeste africana, em 26 de outubro. Os primeiros resultados sistematizados devem sair em cerca de dois anos, mas a equipe já trabalha com um horizonte de pesquisa de uma década sobre os dados coletados nesta única viagem, prova de quão devagar (e quão profundo) caminha a ciência oceanográfica.
Por que isso interessa a quem navega
Bacias oceânicas profundas raramente entram no radar de quem pensa em náutica no dia a dia, nossa relação com o mar costuma parar nos primeiros metros de profundidade, onde estão os peixes, os recifes rasos e as rotas de navegação. Mas expedições como “The Gap” têm efeito direto sobre o que se passa na superfície. Já escrevi aqui sobre o recorde de avistamentos de baleias no litoral do Rio de Janeiro em 2026, e vale lembrar que espécies como a baleia-jubarte dependem de cadeias alimentares que começam justamente nessas zonas de ressurgência e mar profundo, o mesmo fenômeno que a expedição na Zona de Fratura Romanche está indo mapear, ainda que em outra latitude do Atlântico.
Também é sintomático que o Brasil apareça na liderança científica de uma missão dessa escala. A oceanografia nacional vem investindo em parcerias internacionais para reduzir a dependência de dados estrangeiros sobre o Atlântico Sul, região que, apesar de banhar boa parte da costa brasileira, ainda é mapeada majoritariamente por instituições de fora. Ver um pesquisador da Univali dividir a liderança científica com uma universidade britânica, com apoio logístico de uma organização americana, é sinal de que essa equação está mudando.
Para quem acompanha notícias do mar por esporte, turismo ou paixão por embarcações, fica o registro: enquanto regatas e lanchas ocupam as manchetes mais visíveis do noturno náutico, é no silêncio dos 4.500 metros de profundidade que se decide boa parte do que ainda vamos aprender sobre o oceano que navegamos todos os dias.
Perguntas frequentes
- O que é a expedição “The Gap”? É uma missão científica internacional liderada por pesquisadores brasileiros da Univali, em parceria com o Plymouth Marine Laboratory (Reino Unido), que vai mapear a Zona de Fratura Romanche, no Atlântico Equatorial, entre 20 de setembro e 26 de outubro de 2026.
- Qual é a profundidade máxima investigada? A expedição opera até 4.500 metros com o ROV SuBastian, mas a região estudada abriga o Vema Deep, com 7.856 metros, o ponto mais profundo de toda a Dorsal Meso-Atlântica.
- Que navio e equipamentos são usados? A missão usa o R/V Falkor (too), navio de pesquisa do Schmidt Ocean Institute, equipado com o ROV SuBastian, um submarino autônomo de mapeamento e sonda acústica.
- Para que servem os dados coletados? Além de ampliar o conhecimento científico sobre o mar profundo, os dados vão alimentar o Programa Desafio 150 da Década do Oceano da ONU e podem embasar a classificação de trechos da região como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis, com potencial de restringir atividades como pesca de arrasto e mineração submarina.


















