Acompanho com atenção o processo de modernização da Marinha do Brasil, e a aquisição do NDM Oiapoque é um dos capítulos mais curiosos dele. O navio, batizado em homenagem ao rio que forma parte da fronteira com a Guiana Francesa, nasceu como HMS Bulwark, da Marinha Real britânica, e está em fase final de preparação no Reino Unido antes de seguir para o Brasil.

Ndm Oiapoque, Novo Navio Anfíbio Da Marinha Do Brasil, Navegando Em Mar Aberto

quem foi a HMS Bulwark

A HMS Bulwark (pennant L15) é um navio de assalto anfíbio da classe Albion, construído para a Marinha Real britânica. Ao longo de sua carreira, passou anos operando em prontidão reduzida, à espera de manutenção mais profunda, até ser formalmente retirada do serviço ativo no Reino Unido. Sua irmã de classe, a HMS Albion, seguiu caminho parecido e, segundo o Poder Naval, ainda permanece atracada em Devonport aguardando destino.

A transferência para o Brasil foi formalizada em 10 de setembro de 2025, durante a DSEI UK, feira de defesa realizada em Londres. Desde então, o navio já recebeu o número de casco brasileiro G350 pintado no casco e passou a ser chamado NDM Oiapoque, sigla de Navio Doca Multipropósito, a mesma classificação usada no Bahia e no Atlântico.

o preço e a conta que o Reino Unido fez

O valor pago pelo Brasil não foi divulgado oficialmente por nenhum dos dois governos. A imprensa britânica estimou a cifra em cerca de £20 milhões, o equivalente a algo entre R$140 e R$145 milhões pela cotação usada nas matérias. Antes de chegar a esse ponto, porém, o próprio Reino Unido investiu £72,1 milhões (cerca de R$500 milhões) entre 2022 e 2024 só na revitalização do navio, segundo resposta oficial do Ministério da Defesa britânico ao Parlamento.

O mesmo documento registrou uma “perda construtiva” de £428,459 milhões referente à retirada antecipada da HMS Albion e da HMS Bulwark, somando valor contábil remanescente, obras, peças e materiais. É importante separar esse número do valor de venda ao Brasil: a perda contábil britânica reflete o investimento que deixou de gerar retorno dentro da própria Marinha Real, não o preço cobrado do comprador. A deputada Rebecca Smith chamou o negócio de “pechincha de Brasília” e chegou a dizer que o Brasil passaria a ter mais capacidade anfíbia do que a própria Marinha Real e os Royal Marines somados, uma avaliação pessoal dela, não um dado oficial.

o que o navio vai fazer na Marinha do Brasil

Com 176 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 18 mil toneladas, o Oiapoque vai se tornar o segundo maior navio da frota brasileira, atrás apenas do NAM Atlântico (A140), o ex-HMS Ocean incorporado em 2018. A capacidade de transporte varia um pouco entre as fontes consultadas, mas gira em torno de 700 militares embarcados mais cerca de 290 tripulantes permanentes, o que aproxima o total de mil pessoas a bordo em configurações de missão mais cheias.

O navio tem um convés de alagamento (dique interno que permite lançar e recolher embarcações de desembarque diretamente no mar) e um deque de voo capaz de operar dois helicópteros de grande porte simultaneamente. Vai abrigar ainda compartimentos para veículos militares, cargas e equipamento pesado, além de um centro de operações de combate e ponte de comando reformados durante a preparação em Devonport.

Na função, o Oiapoque deve se juntar ao Atlântico, ao NDM Bahia e ao navio de desembarque de carros de combate Almirante Saboia para formar o núcleo anfíbio da Marinha, dando suporte ao Corpo de Fuzileiros Navais em operações de transporte de tropas e equipamento. A Marinha também aponta um uso de resposta a desastres: o navio consegue levar ambulâncias, veículos de engenharia, hospitais de campanha e equipes especializadas a áreas atingidas por enchentes ou deslizamentos.

quando o Oiapoque chega ao Brasil

Aqui vale a cautela. A previsão oficial anunciada em fevereiro de 2026 apontava outubro de 2026 como mês de entrega. Um cronograma divulgado depois adiou a expectativa para novembro, e uma atualização de agosto já falava em entrega “até o final do ano”. Até 8 de outubro de 2026, data da matéria mais completa que encontrei sobre o tema, não havia confirmação pública de que o navio tivesse começado a travessia do Atlântico rumo ao Brasil.

Prefiro tratar a data de chegada como uma incógnita em aberto em vez de arriscar um mês específico: o histórico recente do próprio projeto mostra que o cronograma já mudou três vezes em menos de um ano. Militares brasileiros já treinam para assumir a operação e a manutenção do navio, o que sugere que a entrega está de fato próxima, mesmo sem data confirmada.

por que um navio usado interessa à Marinha

A compra de um navio de segunda mão de uma marinha aliada não é incomum, e o próprio Brasil já fez isso antes: o Atlântico, hoje o maior navio da frota, também nasceu em estaleiro britânico como HMS Ocean antes de ser incorporado em 2018. Comprar um casco já construído e testado costuma custar uma fração do preço de um projeto novo, mesmo somando a revitalização necessária, e permite à Marinha ganhar capacidade operacional em prazo mais curto do que uma construção nacional levaria.

No caso do Oiapoque, a soma do valor de compra com a estimativa de revitalização ainda fica abaixo do que normalmente custaria um navio anfíbio novo do mesmo porte, o que explica em parte o entusiasmo da imprensa de defesa dos dois países com o negócio. Acompanhei de perto um raciocínio parecido quando escrevi sobre a certificação de resistência a choque da fragata Tamandaré: nos dois casos, a Marinha busca ganhar capacidade sem comprometer um orçamento já apertado. Resta acompanhar se o cronograma de entrega do Oiapoque vai se confirmar nos próximos meses.

perguntas frequentes

  • O que significa a sigla NDM? Navio Doca Multipropósito, designação usada pela Marinha do Brasil para navios anfíbios capazes de lançar e recolher embarcações de desembarque e operar helicópteros.
  • Por que o navio recebeu o nome Oiapoque? A Marinha segue a tradição de nomear navios de desembarque com nomes de rios brasileiros; o Oiapoque é o rio que forma parte da fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa.
  • O Oiapoque é maior que a fragata Tamandaré? Sim, por uma grande margem. A Tamandaré é uma fragata de combate de porte médio, enquanto o Oiapoque é um navio anfíbio de 176 metros, pensado para transporte de tropas e equipamento, não para combate direto.
  • Quando o navio deve chegar ao Brasil? Ainda não há data confirmada. Previsões oficiais já apontaram outubro, depois novembro, e mais recentemente “até o final de 2026”, sem confirmação de que a travessia do Atlântico tenha começado.