A sinalização náutica da Baía de Guanabara está falhando em pontos considerados críticos para a navegação, segundo o relatório mensal de eficácia produzido pelo Centro de Auxílios à Navegação Almirante Moraes Rego (CAMR), da Marinha do Brasil. O documento de setembro de 2026, assinado em Niterói no dia 8 de outubro, segundo reportagem da Revista Sociedade Militar, mostra que treze das vinte e oito sinalizações analisadas no estado do Rio de Janeiro estão abaixo do índice recomendado pela IALA (International Association of Marine Aids to Navigation and Lighthouse Authorities), e onze ficam abaixo do mínimo nacional de 95% exigido pela Normam-601.

Acompanho há anos as condições de navegação na região e me surpreendi com a extensão dos problemas revelados pelo próprio órgão responsável por fiscalizá-los. Não é uma falha isolada em um farol remoto: os números envolvem a ponte Rio-Niterói, o Aeroporto Santos Dumont, as barcas que ligam o Rio a Niterói e terminais industriais que recebem navios de grande porte.

Boia De Sinalização Náutica Na Baía De Guanabara Com A Ponte Rio-Niterói Ao Fundo

a ponte Rio-Niterói é o pior caso do estado

Dos 44 pontos de luz instalados na Ecoponte, 20 estão apagados ou com defeito. A eficácia do conjunto ficou em 54,55% em setembro e em 55,81% na média dos últimos doze meses, o pior resultado entre todas as sinalizações privadas do Rio de Janeiro. Uma das falhas, no pilar 51, que marca uma rota de entrada, existe desde 24 de outubro de 2023. As luzes entre os pilares 100 e 101 estão apagadas ou fracas desde fevereiro de 2024, e o radar-transponder (RACON) da ponte não funciona desde 10 de março de 2021.

A estrutura recebe cerca de 150 mil veículos por dia, entre carros e linhas de ônibus intermunicipais. O risco citado no relatório da Marinha é direto: uma colisão de embarcação contra os pilares da ponte poderia causar um acidente grave e interromper a principal ligação viária entre as duas cidades.

aeroporto, barcas e farol também aparecem na lista

No Aeroporto Santos Dumont, a boia “Santos Dumont Noroeste”, que demarca a zona de segurança próxima à cabeceira da pista, está irregular desde 16 de maio de 2025. O conjunto de sinalização do aeroporto operou a 75% de eficácia em julho, agosto e setembro. A situação lembra um episódio de 29 de janeiro de 2019, quando barcos de pesca entraram na área de segurança e pousos e decolagens foram suspensos por cerca de meia hora.

Na Barcas Rio, três das cinco sinalizações estavam irregulares em setembro, com eficácia de apenas 40% no mês e 36,66% na média anual. As boias luminosas Charitas nº 1 e nº 2, que orientam as embarcações até o terminal de Niterói, estão com defeito desde 30 de outubro de 2025 e 10 de julho de 2024, respectivamente, numa travessia usada por mais de 7 mil pessoas por dia. O farolete de Cocotá, na Ilha do Governador, está destruído desde 11 de outubro de 2024, embora a Normam-601 preveja prazo de 72 horas para reparar sinalizações danificadas.

Terminais industriais também aparecem no levantamento com índices abaixo dos 95% recomendados, entre eles os da Cosan, da BHGE e da Petrobras LNG. Mesmo as sinalizações mantidas diretamente pela Marinha, via CAMR, não atingiram o padrão da IALA: 95,80% em setembro e 92,96% na média de doze meses.

por que os problemas se arrastam por anos

O técnico Airton Monteiro, registrado no Conselho Regional dos Técnicos Industriais do Rio de Janeiro (CRT-RJ), afirma que diversas sinalizações da baía estão apagadas há muito tempo e que avisos repetidos apenas postergam os reparos. Para ele, pouco deve mudar enquanto não ocorrer um acidente grave e de repercussão nacional; ele defende que a sinalização privada passe a ser conduzida por técnicos registrados, como já ocorre em outras profissões regulamentadas.

A Marinha atribui as falhas ao mau tempo, à maresia sobre os equipamentos, a furtos e vandalismo e à dificuldade de acesso a pontos remotos da baía. A corporação disse que pretende investir em logística e em missões de apoio com navios hidrográficos, mas não apresentou prazo para alcançar os índices da IALA, tratando a meta como um objetivo institucional permanente.

Um oficial da reserva ouvido pela reportagem original contesta a ideia de que avisos aos navegantes substituem uma luz em funcionamento: o comandante de uma embarcação precisa de referência visual imediata, sobretudo à noite ou em neblina, quando pode nem perceber que uma boia está fora de posição ou apagada.

um corredor que não pode parar

A Baía de Guanabara reúne, em poucos quilômetros, uma ponte de grande fluxo, um aeroporto urbano às margens da água, linhas de barcas e terminais industriais que recebem navios de porte considerável. Essa combinação torna qualquer falha de sinalização mais sensível do que em outras regiões do litoral: o tráfego não para, e os riscos se somam entre embarcações de lazer, linhas comerciais, tráfego aéreo e operações portuárias compartilhando o mesmo espaço aquático.

Episódios de risco por falha de infraestrutura náutica já apareceram em outras partes do país. Mostrei, por exemplo, como um temporal soltou 21 barcaças no Rio Paraguai, em Corumbá, levando a Marinha a abrir um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação. No caso da Baía de Guanabara, porém, o risco não vem de um evento climático isolado, e sim de equipamentos que acumulam meses, e em alguns casos anos, de irregularidade conhecida.

O Brasil se tornou membro pleno da IALA em 2024 e afirma seguir as recomendações do organismo, mas o próprio relatório da Marinha expõe a distância entre o compromisso formal e a realidade mês a mês nas boias e faroletes da baía. O risco permanece concentrado nas mesmas sinalizações que já aparecem irregulares há meses.

perguntas frequentes

O que é o índice de eficácia medido pela Marinha?

É o percentual do tempo em que uma boia, farol ou outro sinal náutico funciona exatamente como descrito nas cartas náuticas, sem falhas, apagamentos ou deslocamento de posição. O índice é calculado mensalmente pelo CAMR e comparado às recomendações da IALA e ao mínimo de 95% estabelecido pela Normam-601.

Quem é responsável por reparar uma boia ou luz irregular?

Depende do tipo de sinalização. Quando é privada, como as da ponte Rio-Niterói ou do Aeroporto Santos Dumont, a manutenção cabe ao operador da estrutura (Ecoponte e Infraero, respectivamente), sob fiscalização da Capitania dos Portos. Quando é pública, a responsabilidade é da própria Marinha, por meio do CAMR.

O que pode acontecer se uma sinalização continuar fora de operação?

A Normam-601 prevê que, para sinalizações privadas com eficácia abaixo de 95%, a Capitania dos Portos notifique o operador sobre os riscos à navegação e à vida, com possibilidade de sanções. Em casos não corrigidos, as regras permitem avisos de cautela, restrições de tráfego ou até a interdição da área até a regularização.

Esse tipo de falha já causou acidentes na Baía de Guanabara?

O próprio relatório da Marinha cita o episódio de 29 de janeiro de 2019, quando embarcações de pesca entraram na zona de segurança do Aeroporto Santos Dumont e pousos e decolagens foram suspensos por cerca de meia hora. Não há registro de acidente grave atribuído diretamente às sinalizações hoje irregulares, mas os técnicos ouvidos na reportagem alertam que o risco aumenta à noite e em condições de baixa visibilidade.