O PEAMB, sigla do Plano de Equipamento e Articulação da Marinha do Brasil para o período de 2010 a 2030, saiu do papel em um momento de otimismo para o país: a Estratégia Nacional de Defesa tinha sido publicada em dezembro de 2008, e a Marinha queria dar corpo a ela com um documento detalhado, assinado pelo professor Eduardo Italo Pesce em 2010. A proposta somava US$ 84,4 bilhões (US$ 68,8 bilhões até 2030 e mais US$ 15,6 bilhões depois disso) para proteger a chamada Amazônia Azul: as reservas de petróleo no mar, os portos, as ilhas oceânicas e as rotas comerciais do litoral brasileiro. Passados quinze dos vinte anos previstos, uma retrospectiva publicada pelo blog Poder Naval me fez revisitar o que o plano queria construir e o que, de fato, chegou a sair do estaleiro.
O que o PEAMB previa
O documento original listava 72 projetos de equipamento e 138 de articulação, somando 282 navios e embarcações e 288 aeronaves ao final do período. Entre as metas mais ambiciosas estavam 15 submarinos convencionais (prontos até 2037), 6 submarinos de propulsão nuclear (até 2047), 2 novos navios-aeródromo (até 2032), 30 escoltas (até 2034), 4 navios de propósitos múltiplos e 48 caças de interceptação e ataque (até 2032). A estrutura também previa uma segunda esquadra, baseada em São Luís, no Maranhão, com divisão anfíbia própria, enquanto a Força de Submarinos ficaria concentrada em Itaguaí, no Rio de Janeiro. Era um projeto para dobrar o porte operacional da Marinha em duas décadas.
O que de fato saiu do estaleiro
Da lista inteira, o programa que mais avançou foi o PROSUB, a parceria com a França firmada ainda em 2008 para construir quatro submarinos convencionais e erguer a infraestrutura de Itaguaí. Em 26 de novembro de 2025 a Marinha fez a mostra de armamento do submarino Tonelero e lançou o Almirante Karam, o terceiro e o quarto submarinos convencionais do programa. Já escrevi aqui sobre como o orçamento do submarino nuclear Álvaro Alberto, a ponta mais cara e mais atrasada do PROSUB, ficou abaixo do que a própria Marinha pediu para 2027 (ver a reportagem sobre o orçamento do Álvaro Alberto). No campo aéreo, a Marinha incorporou o porta-aviões Atlântico, o ex-HMS Ocean britânico, em junho de 2018, o que ao menos manteve a capacidade de operar um navio-aeródromo depois da saída do São Paulo.
A aviação embarcada ilustra o tamanho do buraco que ficou em outras frentes. O PEAMB projetava 48 caças de interceptação e ataque para operar a partir dos porta-aviões, substituindo os antigos AF-1 Skyhawk do extinto NAe São Paulo. Sem um porta-aviões de asa fixa na frota (o Atlântico, atual navio-aeródromo, opera só helicópteros), esse programa perdeu o próprio navio que o sustentaria. Do lado das patrulhas, a meta de 12 navios de 1.800 toneladas até 2024 também ficou longe: a classe Amazonas, construída no Reino Unido a partir de 2011, trouxe três unidades à frota, bem abaixo da dezena extra prevista.
O que ainda não aconteceu
O resto do plano andou mais devagar, ou nem saiu do lugar. A segunda esquadra de São Luís nunca foi criada. Os dois porta-aviões novos previstos para substituir e reforçar a frota não foram encomendados, e o próprio NAe São Paulo, que a Marinha já tinha, foi desmobilizado em fevereiro de 2017 por conta do alto custo de modernização e de incertezas técnicas. As três fragatas de cerca de 6 mil toneladas que o PEAMB queria ver em construção a partir de 2012 também não aconteceram como desenhadas originalmente: a renovação da frota de escoltas só veio, de fato, com o programa Tamandaré, cuja primeira unidade foi incorporada em 24 de abril de 2026, mais de uma década depois do previsto. A meta de 30 escoltas ficou, até aqui, bem distante dela. E o submarino de propulsão nuclear, que o plano de 2010 esperava entregar em 2021, teve o lançamento reestimado para 2037 pelo almirante Alexandre Rabello de Faria, em entrevista à BBC Brasil em março de 2026.
Por que o plano não foi cumprido
As razões para o descompasso, segundo a análise do Poder Naval, são mais estruturais do que pontuais. Executar um plano de duas décadas exige um fluxo contínuo de recursos, algo raro num orçamento sujeito a cortes e contingenciamentos ano a ano. Em 2010, apenas 27,2% da dotação da Marinha foi para investimentos: 66,8% ficaram com pessoal e encargos sociais, e 5,9% com outras despesas correntes. Encomendas pequenas e feitas aos poucos, em vez de contratos de longo prazo, também encarecem cada navio e empurram a Marinha para compras de oportunidade no exterior. Comprar o navio é só a primeira conta: tripulação, manutenção e a infraestrutura de apoio em terra pesam tanto quanto o casco.
Com o horizonte de 2030 cada vez mais próximo e nenhum plano público que substitua formalmente o PEAMB, o documento de Pesce segue sendo a referência mais detalhada de para onde a Marinha do Brasil queria ir. O programa Tamandaré, o PROSUB e a frota de patrulha oceânica mostram que parte da lista avançou, ainda que fora do cronograma original; a segunda esquadra, os porta-aviões novos e o submarino nuclear mostram o quanto ficou de fora. Para quem acompanha a análise completa publicada pelo Poder Naval, fica claro que o atraso não é um caso isolado, e sim um padrão que se repete programa a programa.
Perguntas frequentes sobre o PEAMB
O que significa PEAMB?
PEAMB é a sigla do Plano de Equipamento e Articulação da Marinha do Brasil, documento de 2010 que detalhava a expansão da Marinha até 2030, com desdobramento até 2047 em alguns programas.
Quanto custaria o PEAMB?
A estimativa original era de US$ 84,4 bilhões: US$ 68,8 bilhões entre 2010 e 2030, mais US$ 15,6 bilhões depois de 2030, sempre como previsão de necessidade, não como orçamento já aprovado.
O submarino nuclear brasileiro saiu do PEAMB?
Sim. O PEAMB previa 6 submarinos de propulsão nuclear até 2047 e esperava entregar o primeiro em 2021. Em março de 2026 a própria Marinha revisou a previsão de lançamento para 2037.
O que de fato foi construído do plano original?
Avançaram o PROSUB (com o Tonelero e o Almirante Karam lançados em novembro de 2025) e, fora do desenho original do PEAMB, o programa Tamandaré, cuja primeira fragata entrou em serviço em abril de 2026.



















