O orçamento que o governo enviou ao Congresso para 2027 reservou R$ 388,7 milhões diretamente para a construção do submarino nuclear Álvaro Alberto, o primeiro projeto de propulsão nuclear do Brasil e da América Latina. O valor consta da Mensagem Presidencial que acompanha o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA 2027) e marca a passagem do programa da fase de desenvolvimento de sistemas para a montagem de partes estruturais da embarcação. Mas, segundo análise da Revista Sociedade Militar publicada em 8 de outubro, a Marinha considera que precisaria de cerca de R$ 1 bilhão no ano que vem para não atrasar o cronograma, uma diferença de mais de R$ 600 milhões entre o que foi proposto e o que a Força diz ser necessário.

O que o orçamento de 2027 reserva para o Prosub
Os R$ 388,7 milhões aparecem na ação orçamentária 123H, destinada especificamente à construção do casco e dos sistemas do Álvaro Alberto. Esse valor, porém, é só uma fração do que o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) recebe como um todo. Segundo o Poder Naval, que detalhou a proposta em 1º de setembro, o Prosub soma R$ 852,5 milhões em 2027, divididos em três frentes: a construção do submarino nuclear (R$ 388,7 milhões), a produção dos submarinos convencionais da classe Riachuelo (R$ 247,9 milhões) e a infraestrutura do estaleiro e da base naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro (R$ 215,7 milhões), esta última com meta de chegar a 83% de execução física ao longo do ano. Somando os três itens, o total fecha em R$ 852,3 milhões, uma diferença mínima de R$ 0,2 milhão em relação à cifra oficial, provavelmente fruto de arredondamento.
Há ainda uma quarta linha, maior que todas as outras: o Programa Nuclear da Marinha propriamente dito, com R$ 1,429 bilhão previstos para 2027. Essa verba não entra na conta do casco do submarino — ela financia o Laboratório de Geração Núcleoelétrica (Labgene), em Iperó (SP), a infraestrutura do ciclo do combustível nuclear e a Planta Nuclear Embarcada, que um dia vai alimentar o próprio Álvaro Alberto. É a maior dotação individual entre todos os projetos navais do orçamento de defesa para o próximo ano.
A meta de 29% e o que vem antes do casco resistente
A Mensagem Presidencial que acompanha o PLOA 2027 fixa uma meta de execução acumulada de 29% para o submarino nuclear até o fim do próximo ano. Antes de chegar lá, o cronograma prevê a conclusão da chamada Seção C Preliminar, etapa que precede o início da fabricação do casco resistente, a estrutura que vai suportar a pressão da navegação submersa e que só pode avançar depois que a planta de propulsão, os sistemas internos e os equipamentos de combate estiverem definidos. Quem acompanha programas de submarino sabe que esse tipo de peça não é trivial: as chapas de aço especial usadas no casco resistente levam, segundo reportagens anteriores sobre o programa, cerca de 20 meses entre a encomenda e a entrega, o que torna qualquer atraso no financiamento um problema que se arrasta por anos, não meses.
É exatamente esse ponto que a Marinha levanta ao pedir mais recursos: segundo a análise da Revista Sociedade Militar, a Força argumenta que um estaleiro parado continua gerando custos fixos (mão de obra especializada, fornecedores contratados, armazenamento de materiais) de modo que economizar agora no papel pode custar mais caro no total, se a obra precisar ser interrompida e remontada depois. A Marinha já havia soado um alerta semelhante em março de 2026, quando pediu ao governo um aporte extra de cerca de R$ 1 bilhão para evitar a paralisação de áreas críticas do Prosub ainda naquele exercício, citando o risco de perder equipes especializadas formadas ao longo de anos de projeto. O valor final para 2027 ainda depende da tramitação do PLOA no Congresso, que pode manter os R$ 388,7 milhões propostos, aproximá-lo do bilhão pedido pela Marinha ou reduzi-lo por emenda parlamentar.
Onde está o resto da frota de submarinos
Enquanto o Álvaro Alberto segue em fase inicial de construção, os quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo (encomendados na mesma parceria com a França que deu origem ao Prosub, firmada em 2008) já mostram onde o programa está mais maduro. O Riachuelo e o Humaitá estão operacionais há mais tempo, o Tonelero já foi incorporado ao setor operativo da Marinha, e o Almirante Karam está em fase de comissionamento, passando pelas provas de mar que antecedem sua entrada em serviço. É esse contraste (uma frota convencional que avança e um submarino nuclear que ainda disputa orçamento linha por linha no Congresso) que torna o programa nuclear brasileiro um caso interessante de acompanhar nos próximos orçamentos.
O desafio orçamentário do Álvaro Alberto não é um caso isolado dentro dos grandes programas navais brasileiros. A fragata Tamandaré, primeira de quatro unidades de um programa de R$ 12,5 bilhões, também já enfrentou restrições que ameaçaram etapas do cronograma, mesmo depois de conquistar certificações internacionais inéditas para o país. Em ambos os casos, o gargalo não é tecnológico: é a distância entre o que os programas navais pedem e o que o orçamento anual consegue entregar.
Perguntas frequentes
- O que é o submarino nuclear Álvaro Alberto? É o submarino de propulsão nuclear que a Marinha do Brasil constrói no Complexo Naval de Itaguaí (RJ), em parceria com a Itaguaí Construções Navais. Será o primeiro submarino nuclear do Brasil e da América Latina, com armamento convencional e propulsão movida por um reator nuclear embarcado.
- Quanto o orçamento de 2027 reserva para o submarino nuclear Álvaro Alberto? A proposta enviada ao Congresso reserva R$ 388,7 milhões diretamente para a construção da embarcação, dentro de um total de R$ 852,5 milhões para todo o Prosub em 2027.
- Por que a Marinha pede mais recursos do que foi reservado? Segundo análises do setor, a Força argumenta que um orçamento insuficiente pode paralisar etapas críticas da obra, atrasando o cronograma e arriscando a perda de equipes técnicas especializadas formadas ao longo do projeto.
- Quando o submarino Álvaro Alberto deve ficar pronto? O PLOA 2027 não define uma data de entrega. A meta oficial é alcançar 29% de execução acumulada até o fim de 2027, começando pela fabricação do casco resistente depois da conclusão da Seção C Preliminar.



















