Barcos maiores estão deixando de ser exceção nas marinas brasileiras. Depois de acompanhar de perto os números que circularam nos bastidores do São Paulo Boat Show 2026, percebo que o movimento é mais estrutural do que parece: não se trata apenas de alguns compradores endinheirados encomendando iates maiores, mas de um reposicionamento inteiro da indústria náutica nacional em torno de embarcações com mais metros, mais cabines e mais autonomia de cruzeiro.

O retrato mais recente desse movimento veio de uma reportagem da Forbes Brasil publicada em 1º de outubro de 2026, que ouviu estaleiros e executivos do setor para entender por que o comprador brasileiro trocou o barco de fim de semana por embarcações bem maiores — e por que isso já mudou o desenho das linhas de produção.

O salto na frota náutica brasileira

Iate De Grande Porte Em Marina Durante Boat Show No Brasil, Ilustrando A Tendência De Barcos Maiores

Os números de frota ajudam a entender a escala da mudança. Segundo a Forbes Brasil, o Brasil tinha cerca de 560 mil embarcações de esporte e recreio registradas em 2020; em 2023, esse total já somava 641 mil, um crescimento de 14,4% em três anos. A produção nacional de barcos de lazer gira em torno de 5 mil unidades por ano, um volume que coloca o país entre os principais polos náuticos do mundo, ao lado dos Estados Unidos e de alguns mercados europeus.

O que mudou não foi só a quantidade, mas o tamanho médio de cada encomenda. Estaleiros ouvidos pela reportagem relatam que o comprador que antes fechava negócio em uma lancha de 25 a 30 pés hoje pergunta por modelos de 50, 60 ou mais de 80 pés — faixa antes reservada a um público bem mais restrito.

Os estaleiros mudam de rota

Essa virada já aparece nas linhas de produção. A Schaefer Yachts, uma das maiores fabricantes de iates de luxo do país, apresentou no São Paulo Boat Show 2026 modelos como o Schaefer 660, com pouco mais de 20 metros e quatro camarotes. Segundo o CEO da empresa, Márcio Schaefer, citado pela Forbes Brasil, o estaleiro entregou 86 embarcações em 2025 e projeta entregar cerca de 70 em 2026 — um volume que, somado ao histórico da marca, ajuda a explicar por que a Schaefer é apontada como a maior fabricante de iates de luxo do Brasil.

A Intermarine levou ao evento o modelo 25M, com 25,15 metros de comprimento e um flybridge de 50 m² — um convés superior do tamanho de um apartamento pequeno. Já a Azimut, fabricante italiana com fábrica própria em Itajaí (SC), apresentou o Fly 58 (17,8 metros, três cabines) e, segundo a reportagem, tem plano de investir R$ 120 milhões no país até 2028. A Fibrafort, com o Focker 288 GTS Explorer (8,62 metros), mostra que o movimento para cima também acontece em faixas mais acessíveis: vendeu cinco unidades do modelo, de cerca de R$ 4 milhões cada, antes do fim do evento.

Já escrevi aqui na cobertura do São Paulo Boat Show 2026, quando o destaque foi o barco-carro Seacar Velocity e a meta do setor paulista de faturar R$ 21 bilhões até 2033. Os dados levantados agora pela Forbes Brasil reforçam esse pano de fundo: a 29ª edição do evento, realizada entre 24 e 29 de setembro em São Paulo, não foi só uma vitrine de novidades tecnológicas — foi também o palco onde ficou mais claro que o mercado está migrando para embarcações maiores em praticamente todas as faixas de preço.

Importações em alta e o aquecimento das motos aquáticas

O apetite por embarcações maiores também aparece nos números de comércio exterior. A Forbes Brasil aponta que as importações do setor somaram US$ 75,6 milhões no primeiro semestre de 2026, contra US$ 61,5 milhões no mesmo período do ano anterior — um avanço de 23%. Parte desse crescimento vem de componentes e motorizações que os estaleiros nacionais ainda não produzem internamente para embarcações de maior porte.

O segmento de motos aquáticas, embora seja uma categoria distinta, segue a mesma lógica de aquecimento. A Sea-Doo, marca canadense que responde por cerca de 90% das vendas de motos aquáticas no Brasil, trata o país como seu segundo maior mercado no mundo. Segundo a reportagem, esse nicho já movimenta algo em torno de R$ 2 bilhões por ano no Brasil, com modelos de entrada e também lançamentos de alta performance, como a edição limitada Sea-Doo RXP-X Senna 350, vendida por cerca de R$ 230 mil.

Por que o brasileiro quer embarcações maiores

Na minha leitura, três fatores explicam essa migração. O primeiro é geográfico: com um litoral de mais de 8 mil quilômetros e um número crescente de marinas preparadas para embarcações de porte médio e grande, ficou mais fácil planejar cruzeiros de vários dias em vez de passeios de algumas horas — e isso naturalmente empurra o comprador para modelos com mais cabines, mais autonomia de combustível e mais conforto a bordo.

O segundo fator é econômico. Ernani Paciornik, fundador do São Paulo Boat Show e referência do Grupo Náutica, é citado pela Forbes Brasil ao descrever um setor que já gera cerca de 150 mil empregos diretos e indiretos no Brasil — do estaleiro ao marinheiro, passando por mecânicos e operadores de marina. Quanto maior a embarcação, mais elos dessa cadeia são ativados.

O terceiro fator é mais simbólico: o barco grande como símbolo de status e investimento, não só de lazer. Estaleiros relatam compradores tratando a embarcação como um ativo que pode ser usado pela família e também em charters — um raciocínio parecido com o do mercado de imóveis de alto padrão, agora aplicado ao mar.

O que isso significa para quem navega

Essa migração para embarcações maiores tem efeitos que vão além do preço de tabela: marinas precisam ampliar vagas e calados para receber cascos maiores, estaleiros precisam qualificar mão de obra para sistemas mais complexos de navegação e automação, e o mercado de usados tende a se reorganizar, com lanchas de porte médio migrando para a faixa de entrada enquanto os modelos de 50 pés ou mais ocupam o topo da pirâmide. Resta acompanhar, nos próximos boat shows do calendário nacional, se essa tendência resiste a um cenário de juros ainda elevados, ou se os estaleiros vão precisar equilibrar o apetite por modelos grandes com uma oferta mais robusta na faixa intermediária, que historicamente sustenta o volume de vendas do setor.

Perguntas frequentes

  • Por que os brasileiros estão comprando barcos maiores? Segundo estaleiros ouvidos pela Forbes Brasil, a combinação de mais marinas preparadas para embarcações grandes, busca por mais conforto e autonomia para cruzeiros de vários dias, e o uso do barco como ativo de status e investimento explica a migração para modelos maiores.
  • Qual foi o crescimento da frota náutica brasileira? A frota de embarcações de esporte e recreio passou de cerca de 560 mil unidades em 2020 para 641 mil em 2023, um crescimento de 14,4% em três anos, segundo dados citados pela Forbes Brasil.
  • Quais estaleiros já lançaram modelos maiores em 2026? Entre os destaques do São Paulo Boat Show 2026 estão o Schaefer 660 (Schaefer Yachts, pouco mais de 20 metros), o Intermarine 25M (25,15 metros) e o Azimut Fly 58 (17,8 metros), além de modelos de entrada maiores, como o Focker 288 GTS Explorer, da Fibrafort.
  • O setor náutico brasileiro gera quantos empregos? De acordo com a reportagem da Forbes Brasil, a cadeia náutica brasileira gera algo em torno de 150 mil empregos diretos e indiretos, de estaleiros a marinas.