Há exatos 42 anos, no dia 11 de outubro de 1984, por volta das 15h, a fragata União e o submarino nuclear americano USS Snook passaram a menos de dois metros um do outro no litoral sul da Bahia, perto do Arquipélago de Abrolhos. O episódio, mantido em sigilo pela Marinha por quase três décadas, só se tornou público em 2012, através do blog do jornalista Elimar Côrtes, e voltou a circular nos últimos dias em veículos de defesa que relembraram a data redonda do quase-acidente.

Uma operação conjunta em plena Guerra Fria
O cenário era a Operação Unitas XXV, exercício naval conjunto entre as marinhas do Brasil e dos Estados Unidos, já em sua 25ª edição anual. Dois dias antes do incidente, dez navios (cinco de cada país) haviam saído da Baía de Guanabara rumo a Salvador. Do lado brasileiro estavam o porta-aviões Minas Gerais (A11), as fragatas União (F45) e Liberal (F43), o navio-tanque Marajó (G27) e um contratorpedeiro; pelos americanos, os destróieres MacDonough, Thorn e Talbot, o navio de apoio Concord e o submarino nuclear de ataque USS Snook (SSN-592).
A União, com cerca de 220 pessoas a bordo e 4.000 toneladas de deslocamento, era a última unidade construída da classe Niterói, incorporada em setembro de 1980 no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. O Snook era um submarino nuclear de ataque da classe Skipjack, comissionado em outubro de 1961, com 83 tripulantes — uma das primeiras gerações de submarinos nucleares americanos.
O momento do quase-abalroamento
Dentro do exercício, o Snook simulava um ataque submerso contra o porta-aviões Minas Gerais e o navio-tanque Marajó, enquanto a União integrava a linha de proteção da força principal. Em algum momento da tarde, o submarino precisou subir à profundidade de periscópio, e o fez, segundo os relatos recolhidos por Côrtes, diretamente na proa da fragata brasileira, sem que os radares da União tivessem detectado a aproximação.
Um vigia da fragata foi o primeiro a notar o periscópio emergindo bem na frente da proa e deu o alerta: “alvo a zero, zero, zero”, ou seja, exatamente na direção de deslocamento do navio. O comandante da União, então capitão-de-mar-e-guerra Carlos Edmundo de Lacerda Freire, ordenou uma guinada de emergência para bombordo. A manobra evitou o choque direto, mas não impediu que o costado da fragata passasse extremamente próximo do casco do submarino.
Uma margem de poucos metros
Os relatos sobre a distância exata variam de fonte para fonte, o que é esperado em um episódio reconstruído décadas depois a partir de memória de testemunhas, e não de um relatório técnico oficial tornado público. A primeira detecção visual do periscópio teria ocorrido a cerca de 200 metros; no momento de maior aproximação, tripulantes relataram uma margem inferior a dois metros entre os cascos, enquanto a ata da reunião de avaliação, três dias depois, registrou a aproximação apenas como de “poucos metros”. Independentemente do número exato, o consenso entre quem estava a bordo é de que a distância foi perigosamente pequena para dois navios daquele porte em velocidade.
O sargento Marco Antônio Gomes, de folga na ponte de comando, fotografou a cena com o último quadro disponível no filme de sua câmera — registro que, segundo o relato, chegou a ser inscrito em um concurso de fotografia da revista NoMar antes de o episódio ser classificado como sigiloso pela Marinha.
O risco que preocupava e o que não se confirmou
A proximidade entre uma fragata de superfície e um submarino de propulsão nuclear levanta, naturalmente, a pergunta sobre risco radioativo. Ao comentar o episódio, o biólogo João Luiz Gasparini, da Universidade Federal do Espírito Santo, avaliou que uma colisão provavelmente mataria tripulantes pelo impacto, mas seria improvável causar um acidente nuclear, dado o desenho de contenção do reator. O risco ambiental mais concreto, segundo ele, seria vazamento de combustível das próprias embarcações de superfície, o que é relevante porque o incidente ocorreu perto do Arquipélago de Abrolhos, hoje parque nacional marinho e um dos santuários de biodiversidade mais protegidos do litoral brasileiro.
Vale registrar que esse episódio não foi isolado dentro da própria Operação Unitas: quatro anos antes, na edição XXI de 1980, o próprio Snook já havia sido alvo simulado de um míssil antissubmarino Ikara disparado pela fragata, também da classe Niterói, Defensora, o que é indício de que exercícios de ataque e defesa simulados eram rotina nas unidades Brasil-EUA da época, com margens de segurança que hoje seriam consideradas estreitas.
A discussão sobre risco nuclear em alto-mar ganha outro contorno quando penso no que a própria Marinha do Brasil vem construindo décadas depois daquele quase-acidente: já escrevi aqui sobre como o país avança, com atraso em relação ao cronograma original, no submarino nuclear Álvaro Alberto, que será o primeiro de propulsão nuclear operado por uma marinha da América Latina. O contexto é diferente (ali o desafio é construir, não cruzar o caminho de um submarino estrangeiro), mas o episódio de 1984 lembra como a presença de reatores no mar sempre impõe margens de segurança rígidas.
Trinta anos de sigilo até a reconstrução pública
Segundo os relatos, a própria tripulação do Snook só teria tomado conhecimento da gravidade do quase-acidente quando as esquadras atracaram em Salvador. O caso foi formalmente discutido em 13 de outubro de 1984, dois dias depois, em uma reunião de avaliação da operação com oficiais de ambas as marinhas — mas o episódio foi tratado como estritamente confidencial na época, em plena Guerra Fria e pouco depois da Guerra das Malvinas, que havia reconfigurado as relações entre Argentina, Reino Unido e Estados Unidos no Atlântico Sul.
A história só veio à tona publicamente em 2012, quase 28 anos depois, quando o jornalista especializado em defesa Elimar Côrtes reuniu depoimentos de participantes do exercício em seu blog. Lacerda Freire, que mais tarde alcançaria o posto de vice-almirante, reconheceu à época que uma colisão real “seria um acidente trágico”. Não há, até hoje, um relatório técnico oficial tornado público que explique com precisão por que o Snook emergiu sem ser detectado pelos radares da União — uma lacuna que, na falta de documentação oficial, segue sendo preenchida apenas pela memória dos tripulantes. A reportagem da Revista Sociedade Militar, que trouxe o caso de volta à tona nesta semana, condensa esse relato na véspera do aniversário redondo de 42 anos do episódio.
Perguntas frequentes
- O que quase aconteceu entre a fragata União e o submarino USS Snook? Durante a Operação Unitas XXV, em 11 de outubro de 1984, o submarino nuclear americano USS Snook emergiu inesperadamente à frente da fragata brasileira União, no litoral da Bahia, e as duas embarcações passaram a poucos metros uma da outra antes de uma guinada de emergência evitar a colisão.
- Houve feridos ou danos no incidente? Não há registro de feridos ou de danos materiais em nenhuma das duas embarcações. O caso é lembrado justamente pela manobra bem-sucedida que evitou o choque, não por consequências físicas.
- Por que o episódio ficou tanto tempo em sigilo? O quase-acidente envolvia um submarino nuclear estrangeiro em exercício conjunto durante a Guerra Fria, e a Marinha tratou o caso como confidencial. Ele só se tornou público quase 28 anos depois, em 2012, a partir de depoimentos coletados pelo jornalista Elimar Côrtes.
- Um acidente real poderia ter causado contaminação nuclear? Segundo especialistas consultados sobre o caso, uma colisão dificilmente causaria liberação radioativa, dado o desenho de contenção do reator do submarino — o maior risco ambiental seria um vazamento de combustível das embarcações de superfície, numa área hoje protegida como parque marinho.


















