A Regata Santos-Rio chega à sua 76ª edição em 2026 com a mudança mais significativa de percurso em quinze anos: pela primeira vez desde 2011, a linha de chegada deixa de ficar dentro da Baía de Guanabara e passa para a Ilha Rasa, a cerca de 10 quilômetros da entrada da baía. O anúncio foi feito pela Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO) em conjunto com o Iate Clube de Santos e o Iate Clube do Rio de Janeiro, organizadores históricos da prova, e a largada está marcada para 22 de outubro de 2026.

Acompanho a vela oceânica brasileira há tempo suficiente para saber que uma mudança de chegada não é decisão trivial numa regata com mais de sete décadas de tradição. A Santos-Rio é, segundo o velejador olímpico Lars Grael (que disputou a prova 20 vezes em quatro décadas), “a mais tradicional e provavelmente a mais importante regata oceânica do Brasil”. Mexer no desenho dela é mexer num símbolo.
Por que a chegada saiu da Baía de Guanabara
O motivo é hidrodinâmico, não estético. A barra da Baía de Guanabara é conhecida por correntes de maré que chegam a 1,6 metro por segundo, um regime capaz de decidir uma regata inteira nos últimos minutos, e de forma desigual, favorecendo quem cruza a barra no momento certo da maré e penalizando quem chega minutos depois, por pura sorte de cronômetro. Adalberto Casaes, Capitão de Flotilha do Iate Clube do Rio de Janeiro, resumiu a lógica da mudança: a chegada na Ilha Rasa “oferece melhores oportunidades e chances equilibradas” para todos os competidores, mantendo os veleiros em mar aberto até o fim e dependendo “exclusivamente da estratégia, da tática” de cada equipe, não de um acidente de maré.
Na prática, isso significa que as condições climáticas e oceanográficas passam a pesar ainda mais nas decisões táticas ao longo da prova, mas de forma previsível e igual para toda a frota, já que ninguém mais vai disputar os metros finais dentro de um canal estreito sujeito a correntes imprevisíveis.
Uma prova que já mudou de chegada três vezes
A Ilha Rasa não é a primeira adaptação de percurso na história da regata. Nas primeiras edições, a linha de chegada ficava junto à Escola Naval, dentro da própria Baía de Guanabara. Nos anos 1970, a prova passou a terminar no Arpoador, voltado para o mar aberto, formato que foi retomado por um tempo até a chegada ser transferida para a Ilha da Laje em 2011, ainda dentro da baía. Agora, quinze anos depois, a Ilha Rasa representa o retorno definitivo ao conceito de terminar em mar aberto, mas com uma localização pensada especificamente para neutralizar o efeito da maré.
A regata em si nasceu em 1951, fruto da ideia original de José Candido Pimentel Duarte e executada por Joaquim Belém, do Iate Clube do Rio de Janeiro, e Mariano Jatahy Marcondes Ferraz, do Iate Clube de Santos. Foi essa prova (a primeira travessia oceânica relevante disputada por veleiros brasileiros, já que até então as regatas do país se restringiam a águas protegidas) que deu origem, poucos anos depois, à própria ABVO, fundada em 1955 como entidade organizadora da vela oceânica nacional. Hoje a associação reúne mais de 100 veleiros associados e tem à frente Bayard Freitas Umbuzeiro Neto, o mesmo velejador que, à frente do Inaê Soto40, venceu a disputa direta com o Phytoervas 4Z de Marcelo Bellotti na etapa decisiva da Copa Mitsubishi 2026 em Ilhabela no fim de setembro.
Recorde que resiste desde 2015
O percurso atual, de cerca de 200 milhas náuticas entre Santos e a entrada da Baía de Guanabara, guarda um recorde de tempo que já dura mais de dez anos. Na 65ª edição, em 2015, o veleiro Camiranga, de 65 pés e comandado por Eduardo Plass, completou a prova em 18 horas, 9 minutos e 33 segundos, quebrando com folga a marca de 19h33min40s que pertencia ao Sorsa III desde 2006. Nenhuma embarcação chegou perto desse tempo nas dez edições seguintes, o que só reforça como as condições de vento e mar da Santos-Rio raramente se alinham duas vezes do mesmo jeito.
A edição de 2026 reúne embarcações em categorias que vão do ORC (regra internacional de handicap usada nas principais regatas oceânicas do mundo) ao BRA-RGS, passando por RGS Cruiser, RGS Clássicos e a classe Mini 6.5, voltada a monotipos de pequeno porte que também encaram as 200 milhas. É essa variedade de classes, competindo lado a lado mas com handicaps diferentes, que torna a mudança na linha de chegada ainda mais relevante: uma chegada mais justa em termos de maré beneficia igualmente um clássico de 1970 e um ORC de ponta construído há dois anos.
Duas provas, uma mesma rota
Vale separar duas histórias que compartilham o nome “Santos-Rio” mas são provas bem diferentes. A regata da ABVO é uma competição de vela oceânica, movida a vento, disputada em categorias de handicap. Isso é diferente da tentativa de recorde de velocidade por lanchas a motor na mesma rota, como a que venho acompanhando com o Catamarã 99 e sua equipe, que mira bater a marca de Eike Batista estabelecida em 2006 na travessia motorizada. Mesma geografia, mesmo nome popular, modalidades totalmente distintas: uma é prova de resistência e estratégia à vela, a outra é teste de potência a motor, um bom lembrete de como esse trecho de mar virou, em sete décadas, um laboratório da náutica brasileira.
O que esperar da 76ª edição
Com largada confirmada para 22 de outubro de 2026, a expectativa agora é sobre como a frota vai reagir ao novo desenho de prova logo na primeira tentativa. Chegadas em mar aberto tendem a produzir finais mais lentos e táticos, com menos “sprints” dramáticos de cruzamento de barra que marcaram edições passadas, mas, em compensação, prometem decisões mais limpas sobre quem realmente navegou melhor ao longo das 200 milhas. Para uma regata que ajudou a fundar a vela oceânica no Brasil, é um ajuste que tenta preservar o espírito original da prova: decidir no mar, não na maré.
Perguntas frequentes
- O que é a Regata Santos-Rio? É a mais tradicional regata de vela oceânica do Brasil, disputada desde 1951 entre o litoral de Santos (SP) e o Rio de Janeiro, com cerca de 200 milhas náuticas de percurso, organizada pelo Iate Clube de Santos, pelo Iate Clube do Rio de Janeiro e pela ABVO.
- Por que a chegada da regata mudou para a Ilha Rasa em 2026? Para eliminar a influência das fortes correntes de maré na barra da Baía de Guanabara, que podem chegar a 1,6 m/s e decidir a prova de forma desigual entre os competidores nos metros finais.
- Quando será a 76ª edição da Regata Santos-Rio? A largada está confirmada para 22 de outubro de 2026.
- Qual é o recorde de tempo da Regata Santos-Rio? O recorde pertence ao veleiro Camiranga, que completou o percurso em 18h09min33s na 65ª edição, em 2015, superando a marca de 19h33min40s do Sorsa III, que resistia desde 2006.


















