O Catamarã 99 é o nome que vem circulando nos bastidores da náutica de alta performance brasileira nesta semana, e por um motivo simples: ele quer fazer em menos tempo o que a lancha de Eike Batista fez há quase vinte anos, usando bem menos cavalos de potência para chegar lá. A tentativa está marcada para os últimos meses de 2026, na mesma travessia Santos–Rio de Janeiro que virou uma espécie de “recorde dos recordes” da náutica esportiva nacional.
Acompanho esse tipo de disputa há tempo suficiente para saber que ela raramente é só sobre velocidade bruta. É sobre engenharia, sobre o que a tecnologia permite hoje que não era possível havia duas décadas, e sobre uma marca que resistiu mais tempo do que qualquer um imaginava quando foi cravada.

O recorde que resiste há quase vinte anos
Em 3 de janeiro de 2006, o empresário Eike Batista pilotou a Spirit of Brazil, uma supercatamarã de 46 pés construída sob encomenda nos Estados Unidos ao custo estimado de US$ 1,5 milhão, e cravou a travessia Santos–Rio de Janeiro em 3h01min47s. O trajeto, de pouco mais de 400 km batendo de proa nas ondas do litoral sudeste, vinha de um recorde anterior estabelecido por Paulo Renha em maio de 2005, de 3h29min50s. Batista bateu essa marca por quase meia hora, impulsionado por dois motores Mercury de 1.800 cavalos cada e velocidades de pico próximas de 122 milhas por hora (cerca de 196 km/h), mesmo enfrentando uma pane elétrica e problemas no sistema de combustível no meio do percurso.
A marca virou lenda no meio náutico brasileiro justamente por essa combinação: um barco robusto, motores enormes, e um piloto disposto a arriscar em mar aberto para cravar um número que ninguém mais chegou perto de repetir. Em agosto de 2024, o próprio Batista publicou um vídeo nas redes sociais desafiando publicamente quem quisesse tentar quebrar seu recorde de quase duas décadas — um gesto que, dois anos depois, finalmente encontrou quem topasse o desafio.
Menos potência, mais leveza: a aposta do Catamarã 99
É aí que entra o Catamarã 99. Batizado a partir do modelo R-Sport 396 Cat, o barco tem 39,6 pés — praticamente do mesmo tamanho da Spirit of Brazil —, mas pesa cerca de 2.500 kg totalmente equipado, uma fração do peso de uma lancha tradicional de mesma categoria, graças ao casco em fibra de carbono. A motorização também é bem mais modesta na comparação direta: dois motores de popa Mercury Racing 500 Racing, de 500 cavalos cada, somando 1.000 cavalos contra os 3.600 cavalos combinados da lancha recordista.
Na prática, a equipe está apostando que arrasto reduzido, casco mais leve e aerodinâmica moderna compensam a diferença bruta de potência. A meta declarada é uma velocidade de cruzeiro próxima de 150 milhas por hora (cerca de 240 km/h) e um tempo de travessia de 2h10min — o que representaria cortar mais de 50 minutos do recorde estabelecido em 2006, uma margem considerável para qualquer tentativa desse tipo. O investimento no projeto gira em torno de R$ 6 milhões.
“Ele é um barco muito leve, um barco muito veloz, que vai atingir aproximadamente 150 milhas”, resumiu Marcelo Simonini, da VPR Power Sport, uma das vozes por trás do projeto, em entrevista à Revista Náutica, ao descrever o que torna essa tentativa diferente de todas as que vieram antes.
Quem está por trás da tentativa
A equipe reúne nomes de dois lados do hemisfério. Ricardo Rodrigues, paulista e dono da embarcação, assume o papel de piloto na tentativa. Ao seu lado no comando dos aceleradores estará o americano Randy Sweers, fundador da R-Sport Powerboats, sediada em Fort Lauderdale, na Flórida, e uma referência em barcos de alta performance offshore nos Estados Unidos. O projeto do casco leva a assinatura do engenheiro argentino Ricardo Rinaldi.
É uma equipe multinacional montada especificamente para esse tipo de desafio técnico, o que também diz algo sobre como a categoria de recordes de velocidade em mar aberto se profissionalizou desde os tempos em que Batista apostava boa parte da própria fortuna em construir uma lancha sob medida só para cravar um número.
Por que a rota Santos–Rio segue sendo o palco definitivo
A travessia Santos–Rio de Janeiro não é aleatória como campo de prova. É uma rota de mar aberto, sujeita a ondulação, corrente e variação de vento ao longo de mais de 400 km de litoral, o que a torna um teste real de resistência de casco, autonomia de combustível e, sobretudo, da capacidade da tripulação de manter velocidade máxima por horas seguidas sem que o barco se desestabilize. Não é à toa que o recorde de Batista resistiu por quase vinte anos: bater essa marca exige não apenas um barco mais rápido em teoria, mas um conjunto de piloto, motorista de aceleração, casco e clima que se alinhe no dia certo.
A tentativa do Catamarã 99 chega, aliás, em um momento de aquecimento do mercado náutico de alta performance no Brasil — a mesma semana em que São Paulo recebe a 29ª edição do São Paulo Boat Show, com lançamentos como o barco-carro Seacar Velocity 2027 disputando espaço com iates e lanchas de luxo em um evento que projeta movimentar centenas de milhões de reais. Recordes de velocidade como esse funcionam como vitrine técnica para um setor que aposta em crescimento nos próximos anos.
Perguntas frequentes
- Quem detém o recorde atual da travessia Santos–Rio? O empresário Eike Batista, que em 3 de janeiro de 2006 cravou o percurso em 3h01min47s a bordo da lancha Spirit of Brazil, uma supercatamarã de 46 pés com dois motores de 1.800 cavalos cada.
- O que é o Catamarã 99? É a embarcação, batizada a partir do modelo R-Sport 396 Cat, que pretende quebrar esse recorde usando um casco de fibra de carbono de 39,6 pés e apenas 1.000 cavalos de potência combinados — bem menos que a lancha recordista.
- Quando será a tentativa de recorde? A equipe projeta realizar a travessia cronometrada nos meses finais de 2026, com meta de completar o trajeto em cerca de 2h10min, mais de 50 minutos abaixo da marca atual.
- Quem pilota o Catamarã 99? O brasileiro Ricardo Rodrigues, dono da embarcação, e o americano Randy Sweers, fundador da R-Sport Powerboats, dividem o comando durante a tentativa.



















