A batalha do golfo de Leyte completa 82 anos nesta semana. Travada entre 23 e 26 de outubro de 1944, nas águas que cercam a ilha filipina de Leyte, ela reuniu quase 400 navios e mais de 200 mil combatentes dos dois lados, e por isso é lembrada por historiadores navais como, possivelmente, a maior batalha naval da história. Foi ali também que o mundo viu, por primeira vez de forma organizada, o ataque suicida de aviões japoneses contra navios aliados.
O cenário nas Filipinas
Em outubro de 1944, os Estados Unidos preparavam o desembarque de mais de 130 mil soldados do Sexto Exército em Leyte, cumprindo a promessa que o general Douglas MacArthur havia feito ao deixar o arquipélago em 1942: a de que voltaria. Retomar as Filipinas cortaria o acesso japonês ao petróleo e à borracha de Bornéu, Sumatra e das Índias Orientais Holandesas, recursos que sustentavam a máquina de guerra do Império.
Para impedir o desembarque, a Marinha Imperial Japonesa colocou em ação praticamente tudo o que lhe restava: cerca de 70 navios divididos em três forças, sob o comando do almirante Soemu Toyoda. A Força Central, do vice-almirante Takeo Kurita, trazia os couraçados Yamato e Musashi, os maiores já construídos. A Força Sul, dos vice-almirantes Shōji Nishimura e Kiyohide Shima, entraria pelo estreito de Surigao. E a Força Norte, do vice-almirante Jisaburō Ozawa, com porta-aviões quase sem aviões a bordo, serviria de isca para afastar a Terceira Esquadra americana, de Halsey, do caminho das outras duas.
Do lado aliado, cerca de 300 navios se dividiam entre a Terceira Esquadra de Halsey e a Sétima Esquadra do almirante Thomas Kinkaid, responsável por proteger o desembarque em Leyte.
Quatro batalhas em quatro dias
O que ficou conhecido como a batalha do golfo de Leyte foi, na prática, uma campanha com quatro combates distintos, travados em pontos diferentes do arquipélago.
No mar de Sibuyan, em 24 de outubro, aviões americanos atacaram a Força Central de Kurita e afundaram o Musashi, atingido por dezenas de bombas e torpedos. No estreito de Surigao, horas depois, a frota de Nishimura foi surpreendida pelos encouraçados e cruzadores do almirante Jesse Oldendorf, numa das últimas batalhas da história entre couraçados: Yamashiro e Fusō afundaram, e Nishimura morreu a bordo. Apenas um dos sete navios japoneses que entraram no estreito conseguiu escapar.
No dia seguinte, 25 de outubro, dois combates aconteceram quase ao mesmo tempo. Diante do cabo Engaño, os aviões de Halsey alcançaram a força isca de Ozawa e afundaram o porta-aviões Zuikaku, último sobrevivente do ataque a Pearl Harbor, além de outros dois porta-aviões leves. Ao largo da ilha de Samar, a Força Central de Kurita, que havia atravessado o estreito de San Bernardino sem ser detectada, surpreendeu um pequeno grupo de porta-aviões de escolta e destroieres americanos, a chamada Taffy 3. Os destroieres Johnston e Hoel, a escolta Samuel B. Roberts e os porta-aviões Gambier Bay e St. Lo foram perdidos, mas o contra-ataque agressivo da pequena força americana convenceu Kurita a recuar sem completar o ataque ao golfo de Leyte.
Os primeiros kamikazes organizados
Foi também nesses dias que a guerra naval mudou de caráter. Em 25 de outubro, pilotos japoneses lançados de bases em Davao atacaram de forma deliberada e coordenada os porta-aviões de escolta do grupo Taffy 1, mergulhando com os aviões contra os navios. O Santee foi o primeiro atingido, com 16 mortos a bordo; pouco depois, o Suwannee recebeu dois golpes, que juntos mataram mais de cem tripulantes. No dia seguinte, o St. Lo, sobrevivente da batalha de Samar, afundou depois de ser atingido por um kamikaze, o único navio perdido dessa forma na campanha.
Esses ataques marcaram o início de uma tática que o Japão passaria a usar de forma sistemática até o fim da guerra, à medida que ficava mais difícil enfrentar os Estados Unidos em combate convencional.
Por que é considerada a maior batalha naval da história
Os números ajudam a explicar o peso que a batalha do golfo de Leyte ocupa na história naval. Entre os dois lados, estima-se que quase 400 navios e mais de 200 mil militares estiveram envolvidos ao longo dos quatro dias de combate, escala que supera a da batalha da Jutlândia, de 1916, até então a referência em confrontos entre frotas. O Japão perdeu, segundo o Comando de História Naval dos Estados Unidos, três encouraçados, quatro porta-aviões, dez cruzadores e cerca de dez destroieres, com perto de 12 mil mortos. A Marinha americana registra cerca de 3 mil mortos e a perda de um porta-aviões leve, dois de escolta, dois destroieres e uma escolta de destroieres.
Além da escala, o resultado teve um peso estratégico que poucas batalhas navais da Segunda Guerra Mundial tiveram. A Marinha Imperial Japonesa perdeu a capacidade de operar como força organizada pelo resto do conflito; sem combustível e sem porta-aviões com aviões suficientes, o que restava da frota passou a maior parte do tempo ancorado. O caminho ficou livre para as invasões seguintes, em Iwo Jima e Okinawa, e colocou o território japonês ao alcance dos bombardeiros B-29. Foi, segundo o programa português E o Resto é História, do Observador, “a maior batalha naval da história contemporânea”.
Um capítulo final na história naval do Pacífico
A derrota em Leyte selou um processo que havia começado dois anos antes, quando o avanço japonês pelo sudeste asiático forçou a retirada de praticamente toda a presença naval aliada na região. Já tratei aqui no POPA de um episódio daquela retirada de 1942: a fuga do pequeno caça-minas holandês Abraham Crijnssen, disfarçado de ilha para escapar da marinha japonesa, depois das batalhas do mar de Java e do estreito de Sunda. Entre aquela fuga e o golfo de Leyte se passaram pouco mais de dois anos, o tempo que os Estados Unidos levaram para reconstruir uma frota capaz de reverter o equilíbrio de forças no Pacífico.
Leyte também foi a última vez na história em que encouraçados trocaram tiros entre si, no estreito de Surigao, um tipo de combate que o porta-aviões já havia tornado obsoleto.
Perguntas frequentes
Quantos navios participaram da batalha do golfo de Leyte?
Entre as forças aliadas e japonesas, estima-se que quase 400 navios de guerra estiveram envolvidos ao longo dos quatro dias de combate, de 23 a 26 de outubro de 1944, além de mais de 200 mil militares.
Por que o golfo de Leyte é chamado de maior batalha naval da história?
Pela combinação de número de navios, efetivo militar e área de combate, que supera outras grandes batalhas navais do século 20, como a da Jutlândia, em 1916. Também foi o último confronto direto entre encouraçados e o palco dos primeiros ataques kamikaze organizados da guerra.
O que foram os kamikazes de Leyte?
Foram os primeiros ataques suicidas aéreos planejados do Japão na Segunda Guerra Mundial, lançados em 25 de outubro de 1944 contra porta-aviões de escolta americanos do grupo Taffy 1, a partir de bases aéreas em Davao, nas Filipinas.
Quem venceu a batalha do golfo de Leyte?
Os Estados Unidos e seus aliados, que garantiram o desembarque em Leyte e destruíram a capacidade da Marinha Imperial Japonesa de operar como força organizada pelo restante da guerra.

















