Tubarão-branco e toninha protagonizam agora o primeiro caso de predação entre as duas espécies já documentado cientificamente em toda a costa do Atlântico Sul Ocidental. A descoberta, publicada em agosto de 2026 na revista Wildlife Research, confirma algo que pesquisadores brasileiros suspeitavam havia anos, mas nunca tinham conseguido provar com rigor: mesmo o golfinho mais discreto e mais ameaçado do litoral do país não está fora do alcance do maior predador solitário dos oceanos.
Acompanho a pesquisa marinha brasileira de perto, e poucos achados recentes me pareceram tão reveladores quanto este. Não é apenas uma curiosidade zoológica: é um retrato raro do topo da cadeia alimentar marinha em ação bem perto da nossa costa, envolvendo justamente a espécie de golfinho mais vulnerável do Brasil.
Uma carcaça, três mordidas e uma pergunta sem resposta há décadas
Tudo começou com o encalhe de uma toninha (Pontoporia blainvillei) no litoral do Rio Grande do Sul. O animal, uma fêmea de 1,72 metro e pelo menos 4 anos de idade, chegou à praia entre 3 e 5 dias depois da morte, mas com as marcas de ataque surpreendentemente bem preservadas. Pesquisadores da Pró-Squalus, organização de pesquisa e conservação de tubarões sediada em Torres (RS), identificaram três conjuntos distintos de mordidas no corpo do animal, incluindo uma na nadadeira dorsal com hemorragia visível — sinal de que a toninha ainda estava viva no momento do ataque.
Até este registro, nunca havia se documentado cientificamente um ataque de tubarão-branco (Carcharodon carcharias) a uma toninha em toda a região. Relatos informais e especulações sempre existiram entre pescadores e biólogos, mas faltava uma carcaça com evidências físicas suficientes para sustentar a hipótese com método científico.
Como os cientistas provaram que foi um tubarão-branco
A confirmação não veio de um vídeo ou de uma testemunha, e sim de duas técnicas forenses aplicadas ao próprio corpo da vítima: a morfologia das feridas e a alometria dentária, que relaciona o tamanho e o espaçamento das marcas de mordida ao tamanho do animal que as produziu. Os pesquisadores Walter Nisa-Castro-Neto e Paulo Guilherme Carniel Wagner, da Pró-Squalus, em parceria com Patricia Charvet, do programa de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Federal do Ceará, mediram um arco de mordida com 60,3 centímetros de circunferência.
A partir desse dado, e comparando com registros de dentição de tubarões-brancos adultos, a equipe estimou um predador de 3,6 a 3,8 metros de comprimento, pesando entre 400 e 490 quilos — um indivíduo adulto, mas não excepcionalmente grande para a espécie. O estudo foi publicado na edição de agosto de 2026 do periódico Wildlife Research, da CSIRO Publishing (volume 53, edição 8, DOI 10.1071/WR26042) — o artigo original está disponível na plataforma BioOne, o que me deu segurança para tratar o achado como dado verificado e não como especulação de matéria de jornal.
A toninha: pequena, discreta e a mais ameaçada do Atlântico Sul
Boa parte de quem navega ou pesca no litoral sul e sudeste do Brasil já ouviu falar de baleias e golfinhos-nariz-de-garrafa, mas poucos conhecem a toninha. É o menor golfinho marinho do mundo, vive isolado ou em pequenos grupos perto da costa, raramente salta ou se aproxima de embarcações — e é justamente essa discrição que a tornou, ironicamente, a espécie de golfinho mais ameaçada de todo o Atlântico Sul Ocidental.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica a toninha como “Vulnerável” globalmente, mas na Lista Nacional de Fauna Ameaçada do Brasil ela está em categoria ainda mais grave, “Criticamente em Perigo”. Restam menos de 20 mil indivíduos no país, e a população que vive entre Santa Catarina e São Paulo — a mesma área citada no estudo — é estimada em menos de 7 mil animais. A principal ameaça não são os predadores naturais como o tubarão-branco, e sim a captura acidental em redes de pesca de emalhe: somente entre agosto de 2015 e outubro de 2020 foram registradas 2.696 mortes de toninhas por esse motivo, e no litoral gaúcho as estimativas anuais variam de várias centenas a mais de mil animais mortos por ano.
É um contraste que vale registrar: a espécie sobrevive havia milhões de anos aos predadores naturais do oceano, mas é a atividade humana — não o tubarão-branco — que hoje ameaça sua existência. Escrevi sobre essa mesma tensão entre recuperação da fauna marinha brasileira e risco de colisão com embarcações quando cobri o recorde de avistamentos de baleias no litoral do Rio de Janeiro em 2026: populações de grandes cetáceos se recuperando, mas ainda vulneráveis à presença humana no mar.
O que muda para quem navega no litoral gaúcho
Não é motivo de alarme para quem veleja ou pesca na região. Ataques de tubarão-branco a toninhas — ou a qualquer outro animal marinho — continuam sendo eventos raros e naturais na cadeia alimentar costeira, e não há registro de que a presença desse predador no litoral sul represente risco elevado a banhistas ou tripulantes. O valor do estudo está em outro lugar: ele mostra que o tubarão-branco frequenta águas mais próximas da costa gaúcha do que se supunha, o que interessa diretamente a pesquisadores de ecologia marinha e a quem monitora a fauna que compartilha essas águas com embarcações de pesca e lazer.
Também reforça algo que discuto com frequência aqui no Popa: cada carcaça encalhada que chega a pesquisadores com boas condições de preservação é uma oportunidade científica rara. Sem o trabalho de monitoramento de praia feito por organizações como a Pró-Squalus, esse primeiro registro de predação jamais teria sido documentado — teria virado apenas mais uma toninha morta na areia, sem explicação.
Perguntas frequentes
- Onde aconteceu o ataque de tubarão-branco à toninha? A carcaça foi encontrada no litoral do Rio Grande do Sul, região onde atua a organização de pesquisa Pró-Squalus, sediada em Torres.
- Como os cientistas confirmaram que foi um tubarão-branco e não outra espécie? Por meio de morfologia das feridas e alometria dentária: o tamanho e o espaçamento das marcas de mordida (arco de 60,3 cm de circunferência) foram comparados a padrões conhecidos de dentição de tubarões-brancos adultos, indicando um animal de 3,6 a 3,8 metros.
- A toninha é uma espécie ameaçada de extinção? Sim. É classificada como “Vulnerável” pela IUCN e como “Criticamente em Perigo” na lista nacional brasileira, com menos de 20 mil indivíduos remanescentes no país e forte pressão de captura acidental em redes de pesca.
- Esse tipo de ataque é comum no Atlântico Sul? Não. Este é o primeiro caso cientificamente documentado de predação de um tubarão-branco sobre uma toninha em toda a região, publicado em agosto de 2026 na revista Wildlife Research.

















