A manutenção da Marinha do Brasil avançou em 2025, mas continua longe da meta oficial do governo. Segundo o monitoramento do Programa Geral de Manutenção (Progem), divulgado pelo Ministério da Defesa e repercutido pela Revista Sociedade Militar em 2 de novembro, o índice de execução do programa subiu de 55,09% em 2024 para 65,12% em 2025, um avanço de 10,03 pontos percentuais. O problema é que a meta para o ano passado era de 77%, o que deixa a Força quase 12 pontos abaixo do planejado.

Navio Da Marinha Do Brasil Em Manutenção Em Dique Naval

O índice do Progem não indica quantos navios, submarinos ou aeronaves estão aptos a navegar ou voar num determinado momento. Ele acompanha a execução físico-financeira dos projetos de manutenção: quanto do orçamento disponível para reparos foi efetivamente liquidado, isto é, pago depois da conclusão dos serviços contratados. Um índice baixo pode refletir atraso de pagamento tanto quanto atraso de reparo, mas os dois problemas normalmente andam juntos, porque um contrato sem verba liberada simplesmente não anda.

Por que faltou dinheiro em 2025

O relatório atribui o resultado de 2025 a uma insuficiência de recursos de R$ 21,79 milhões dentro do próprio Progem. Segundo a Marinha, o contingenciamento de parte do orçamento atrasou o início de alguns serviços de manutenção, empurrando a conclusão deles para o ano seguinte, ou seja, para 2026. Separadamente, as despesas discricionárias de custeio da Força caíram de R$ 1,549 bilhão para R$ 1,399 bilhão, um corte de R$ 150 milhões que, segundo o próprio relatório de gestão, afetou a operação das organizações militares, a manutenção de equipamentos e o combustível usado em atividades operacionais.

Em 2024 o problema já tinha uma causa parecida: o orçamento do Progem daquele ano sofreu uma redução de 18,28% em relação ao planejado, o que ajuda a explicar por que o índice de execução ficou tão abaixo da meta de 75% fixada para aquele ano. A trajetória dos últimos dois anos mostra, então, menos uma crise pontual do que um padrão de orçamento insuficiente se repetindo ano após ano, com a Marinha remanejando prioridades para proteger os equipamentos considerados mais críticos.

O que ficou pronto mesmo assim

Apesar do descompasso orçamentário, alguns dos principais ativos da Esquadra passaram por manutenções importantes dentro do período avaliado. O navio-aeródromo multipropósito Atlântico, descrito pela própria Marinha como o principal navio da frota brasileira, ficou docado no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro entre setembro de 2024 e março de 2025, deixando o dique em 20 de março. Foi a primeira docagem do navio em território brasileiro desde sua incorporação, em 2018, e envolveu trabalho em eixos propulsores, hélices, lemes, válvulas de fundo, motores auxiliares, radares e ecobatímetro, além de proteção do casco.

O submarino Tupi (S-30) também passou por reparos relevantes, deixando o Dique Santa Cruz em 29 de abril de 2025 depois de uma manutenção que incluiu substituição parcial de baterias, revisão do motor principal, reparo do isolamento elétrico, válvulas, compressores, estrutura do casco e tubos lançadores de torpedo. O submarino foi testado antes de deixar o dique e passou por provas de mar na sequência. No levantamento de 2024, três dos quatro serviços de manutenção previstos para os submarinos da classe Riachuelo tinham sido concluídos, um indicativo de que a frota submarina seguiu recebendo atenção prioritária mesmo com o orçamento apertado.

Metas mais altas pela frente

O planejamento federal para os próximos anos não reduz a régua: a expectativa oficial é que o índice do Progem chegue a 79% em 2026 e a 80% em 2027, patamares ainda mais distantes dos resultados recentes. Isso coloca a Marinha diante de um desafio duplo, já antecipado em boa parte pelo histórico do próprio Plano de Equipamento e Articulação da Marinha do Brasil (Peamb): recuperar o atraso de manutenção acumulado enquanto tenta sustentar um ritmo de investimento em novos meios, como os submarinos do Prosub e as fragatas da Classe Tamandaré, que dependem da mesma estrutura orçamentária disputada por tantas outras prioridades.

A combinação de frota em expansão com orçamento de manutenção limitado tende a testar a capacidade da Força de equilibrar prioridades nos próximos exercícios fiscais. Cada novo navio incorporado, como os patrulhas da Classe Macaé entregues recentemente, soma mais uma linha de manutenção preventiva à mesma conta que já não fecha com folga hoje.

O padrão não é exatamente novo para quem acompanha o planejamento naval brasileiro de perto. O Peamb, documento que desde 2010 serve de referência para o reequipamento da Marinha, já previa um ritmo de investimento que dependia de aportes orçamentários estáveis ao longo de décadas, e boa parte do que não avançou no plano original tem a mesma raiz: recursos liberados abaixo do previsto, ano após ano, empurrando prazos e obrigando a Força a escolher o que mantém operacional primeiro. A diferença é que agora existe um número oficial e recorrente, o próprio índice do Progem, que permite medir esse descompasso ano a ano em vez de descobri-lo só quando um navio específico passa mais tempo do que deveria fora d’água.

Para a tripulação e para quem depende da presença naval em áreas como a Amazônia Azul, o efeito prático de um índice abaixo da meta tende a aparecer de forma indireta: manutenções mais espaçadas, docagens que se estendem por mais meses do que o planejado inicialmente e uma pressão constante para priorizar os poucos meios mais novos da frota, como o Atlântico e os submarinos da classe Riachuelo, em detrimento de unidades mais antigas. Nenhum desses efeitos aparece isolado no relatório de 2025, mas todos decorrem logicamente da mesma limitação orçamentária que o próprio Ministério da Defesa reconhece nos documentos de monitoramento do PPA.

Perguntas frequentes

O índice de 65,12% significa que a maioria dos navios da Marinha está parada?

Não. O índice mede a execução financeira dos projetos de manutenção contratados, não a proporção de navios, submarinos ou aeronaves aptos a operar em determinado momento.

Por que o orçamento de manutenção ficou insuficiente em 2025?

O relatório aponta um contingenciamento que gerou uma insuficiência de R$ 21,79 milhões dentro do Progem, somado a um corte separado de R$ 150 milhões nas despesas discricionárias de custeio da Força, que atingiu também operação e combustível.

Algum navio importante ficou sem manutenção por falta de verba?

O relatório não cita nenhum reparo cancelado, mas registra que parte dos serviços previstos para 2025 teve a conclusão empurrada para 2026 por causa do atraso na liberação de recursos.

Quais metas a Marinha precisa cumprir nos próximos anos?

O planejamento federal prevê um índice de 79% em 2026 e 80% em 2027, patamares bem acima dos 65,12% registrados em 2025.