Um resgate em alto-mar mobilizou a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira na última terça-feira, 13 de outubro, a cerca de 130 km da costa de Natal. Um tripulante georgiano de 57 anos, que trabalhava a bordo do navio mercante Nordic Star, sofreu uma queda e passou a sentir dores fortes na região lombar, com reflexo nas pernas, problemas digestivos, dificuldade para caminhar e para dormir, além de ter perdido cerca de 11 quilos. A combinação de sintomas levou a tripulação a pedir ajuda ao sistema brasileiro de busca e salvamento marítimo.

O Nordic Star, de bandeira das Ilhas Cayman, seguia rumo à Coreia do Sul quando o caso chegou ao conhecimento da Marinha na manhã de segunda-feira, 12 de outubro. A embarcação foi orientada a se aproximar do litoral de Touros, no Rio Grande do Norte, para facilitar uma eventual operação de resgate. Um médico acompanhou o caso por telemedicina e recomendou a evacuação aeromédica do tripulante, diagnóstico que acabou confirmado pela gravidade do quadro.

Helicóptero De Busca E Salvamento Sobrevoando O Oceano Atlântico Durante Operação De Resgate Em Alto-Mar

Quem coordenou a resposta foi o Salvamar Nordeste, centro regional do sistema de busca e salvamento marítimo da Marinha, sediado em Natal. O Salvamar é o serviço que a Marinha do Brasil opera desde 1984, por atribuição da Lei nº 7.273, para socorrer navegantes em emergências que envolvam risco à vida no mar, nos portos e nas vias navegáveis interiores do país. A estrutura tem supervisão nacional no Rio de Janeiro (Salvamar Brasil) e cinco centros regionais de sub-região marítima, em Rio Grande, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Natal, além de centros fluviais em Manaus, Ladário e no Distrito Federal.

Essa divisão existe porque o Brasil assumiu, ao assinar a Convenção Internacional sobre Busca e Salvamento Marítimo de Hamburgo, de 1979, o compromisso de garantir que qualquer incidente no mar dentro de sua área de responsabilidade seja coordenado por uma organização de SAR, sigla do inglês para busca e salvamento. A área sob responsabilidade brasileira vai até o meridiano de 10º W no oceano Atlântico, bem mais longe da costa do que a maioria das pessoas imagina. Para atender aos chamados, os centros do Salvamar podem acionar meios navais e aeronavais da própria Marinha, embarcações de capitanias, navios mercantes e de pesca que estejam na região, iates clubes e aeronaves da Força Aérea pelo sistema Salvaero.

Foi exatamente esse último braço que entrou em ação no caso do Nordic Star. O Comando de Operações Aeroespaciais mobilizou um helicóptero H-36 Caracal do 1º/8º Grupo de Aviação, o Esquadrão Falcão, baseado na Base Aérea de Natal. A aeronave decolou e percorreu os cerca de 130 km até o navio para retirar o tripulante ferido, que recebeu os primeiros atendimentos já dentro do helicóptero durante o voo de volta.

Ao chegar à Base Aérea de Natal, o georgiano foi recebido por uma equipe de emergência e por uma ambulância do Samu, que o aguardavam na pista para o transporte até um hospital da capital potiguar. Depois do resgate, a Marinha informou que o paciente estava estável.

Esse tipo de operação, embora menos visível do que uma regata ou um lançamento de embarcação, é parte do trabalho diário da Marinha no mar brasileiro. Cobri recentemente o caso do temporal que soltou 21 barcaças no Rio Paraguai, em Corumbá, quando a Marinha também abriu um inquérito administrativo sobre acidentes e fatos da navegação depois de resgatar pessoas em risco nas águas interiores do Mato Grosso do Sul. São cenários diferentes, um em rio e outro em alto-mar, mas o mesmo arcabouço legal e a mesma lógica de resposta coordenada aparecem nos dois casos.

O episódio também chama atenção para o tamanho da faixa de oceano que passa, todos os dias, por navios de bandeiras estrangeiras sem qualquer relação direta com o Brasil, a caminho de portos distantes como os da Ásia. Um navio registrado nas Ilhas Cayman, com destino à Coreia do Sul, tripulado por um cidadão georgiano, acabou dependendo da estrutura brasileira de busca e salvamento simplesmente por estar passando pela área sob responsabilidade do país quando a emergência aconteceu. É esse tipo de obrigação internacional, pouco discutida fora dos círculos náuticos, que sustenta boa parte do tráfego marítimo mundial.

Mais informações sobre o caso, incluindo detalhes do histórico de saúde do tripulante, foram divulgadas pela Revista Sociedade Militar, que acompanhou o desenrolar da operação.

Perguntas frequentes

O que é o Salvamar?
É o Serviço de Busca e Salvamento Marítimo da Marinha do Brasil, criado pela Lei nº 7.273/1984, responsável por coordenar o socorro a pessoas em risco de vida no mar, em portos e em vias navegáveis interiores.

Até onde chega a área de responsabilidade do Brasil no Atlântico?
A área sob responsabilidade brasileira para busca e salvamento se estende até o meridiano de 10º W, uma faixa de oceano muito mais ampla do que o território marítimo nacional.

Por que um navio estrangeiro foi socorrido pela Marinha brasileira?
Pela Convenção de Hamburgo de 1979, qualquer incidente que ocorra dentro de uma área de responsabilidade de busca e salvamento precisa ser coordenado pelo país responsável por aquela área, independentemente da bandeira da embarcação ou da nacionalidade de quem precisa de ajuda.

O que é o sistema Salvaero mencionado na operação?
É o mecanismo pelo qual os centros do Salvamar acionam aeronaves da Força Aérea Brasileira para apoiar operações de busca e salvamento no mar, como fez o helicóptero H-36 Caracal neste caso.