Exercício De Defesa Naval Deportex No Porto De Imbituba

Acompanhei nos últimos dias o desenrolar de um exercício pouco comum na rotina dos portos brasileiros: entre 19 e 23 de outubro, a Marinha do Brasil mobilizou cerca de 200 militares no Porto de Imbituba, em Santa Catarina, para simular uma invasão e tentativas de sabotagem às instalações portuárias. O nome do exercício é Deportex 2026, sigla para Defesa Naval de Porto, e ele me pareceu um bom pretexto para explicar como funciona, na prática, a proteção dos portos brasileiros contra ameaças que vão muito além do mau tempo ou de acidentes de navegação.

O cenário adotado pelo Comando do 5º Distrito Naval foi o Nível de Proteção 3 do Código ISPS (International Ship and Port Facility Security), o mais alto previsto pela Organização Marítima Internacional. Segundo a própria definição da IMO, esse nível se aplica a situações excepcionais, quando um incidente de segurança é considerado provável ou iminente. Vale reforçar: em Imbituba, tratou-se apenas de um cenário de treinamento. O nível real de proteção do porto não foi elevado, e a administração portuária foi clara ao afirmar que não havia qualquer ameaça concreta por trás da simulação.

A mecânica do exercício lembra um grande jogo de guerra com regras bem definidas. Uma parte dos militares ficou responsável por defender pontos sensíveis do complexo portuário, enquanto outra equipe assumiu o papel de força adversária, tentando romper barreiras, alcançar áreas críticas e executar sabotagens simuladas. As equipes de defesa não sabiam de antemão quando ou onde os ataques aconteceriam, e havia rodízio entre os grupos ao longo dos cinco dias. Um militar interceptado pela equipe contrária era considerado “fora de ação”, regra que valia tanto para atacantes quanto para defensores.

A preparação começou bem antes da semana de operações. Em 9 e 10 de setembro, equipes da Marinha já haviam feito visitas de reconhecimento ao porto, mapeando infraestrutura, sistemas de vigilância, controles de acesso e áreas relevantes para o exercício. Christiano Lopes, diretor-presidente dos portos de Imbituba e Laguna, destacou a cooperação institucional entre a administração portuária e as forças militares durante a preparação. Já Sandro Cassol Bainha, chefe da Guarda Portuária e oficial de segurança da instalação (PFSO), foi enfático ao afirmar que o exercício não configurava uma avaliação dos procedimentos de segurança do próprio porto, mas um treinamento voltado para a prontidão das equipes militares.

Entender por que a Marinha escolheu Imbituba para esse tipo de treinamento ajuda a dar a real dimensão do que estava em jogo. Entre janeiro e maio de 2026, o porto catarinense movimentou mais de 3,29 milhões de toneladas de carga e recebeu 145 navios, com comércio exterior associado às operações portuárias superior a 799 milhões de dólares no período, segundo dados da própria administração do porto. A pauta de cargas inclui carvão, coque de petróleo, sal e contêineres, itens com peso direto em cadeias logísticas e industriais. Uma interrupção prolongada nessas operações, mesmo que hipotética, teria efeito cascata sobre setores que dependem desse fluxo.

O Deportex não nasceu em 2026. O mesmo porto catarinense já havia recebido uma edição batizada de Deportex-S, em dezembro de 2022, com cerca de 300 integrantes e meios bem mais variados: o rebocador de alto-mar Tritão, o navio-patrulha Benevente, o navio de apoio oceânico Mearim, mergulhadores de combate do GruMeC, o Grupamento de Fuzileiros Navais do Rio Grande e até uma aeronave da Força Aérea Brasileira. Naquela edição, os exercícios incluíram simulações de ataque, minagem e esclarecimento e defesa do tráfego marítimo, além de operações especiais em conjunto com ações de superfície e terrestres. Registros também mostram uma edição do programa em 2025, realizada em Madre de Deus, na Bahia, o que indica um calendário recorrente de treinamentos em diferentes portos estratégicos do litoral brasileiro.

Essa rotina de simulações se conecta a um esforço mais amplo da Marinha por incorporar tecnologia e métodos de treinamento mais sofisticados à proteção das águas jurisdicionais brasileiras. Tratei recentemente, por aqui, do Aramuss 2026, exercício realizado em Salvador que testou drones navais em operações de vigilância. Os dois episódios, ainda que distintos em escopo, mostram uma mesma direção: cada vez mais a defesa portuária e naval brasileira passa por treinamentos realistas, com cenários adversariais, e não apenas por protocolos burocráticos revisados em gabinete.

Ao final dos cinco dias, estava prevista uma reunião de avaliação entre a Marinha e representantes do porto para discutir os procedimentos testados. Segundo as informações disponíveis até o fechamento desta matéria, os resultados detalhados do exercício dependem de relatórios internos da própria Força, ainda não divulgados publicamente. De qualquer forma, o episódio em Imbituba é um retrato interessante de como a segurança marítima brasileira é testada na prática, com simulações que colocam frente a frente equipes de ataque e defesa em um cenário que, por sorte, segue sendo apenas um exercício.

Perguntas frequentes sobre o exercício Deportex no Porto de Imbituba

O que é o Código ISPS?
É o International Ship and Port Facility Security Code, um conjunto de normas da Organização Marítima Internacional (IMO) que estabelece níveis de proteção para navios e instalações portuárias. O Nível 3, usado como cenário no Deportex 2026, é reservado para situações em que um incidente de segurança é considerado provável ou iminente.

O exercício interrompeu a movimentação de cargas no porto?
Não. A administração do Porto de Imbituba informou que as simulações foram planejadas para serem controladas, sem causar danos nem paralisar as operações comerciais durante os cinco dias de treinamento.

Já houve outro exercício semelhante no mesmo porto?
Sim. Em dezembro de 2022, o porto recebeu a edição Deportex-S, coordenada também pelo Comando do 5º Distrito Naval, com cerca de 300 militares e meios navais como o navio-patrulha Benevente e o navio de apoio oceânico Mearim.

Quais ameaças foram simuladas durante o Deportex 2026?
O cenário incluiu tentativas simuladas de invasão, infiltração e sabotagem às instalações do porto, sempre em caráter fictício, sem qualquer indício de ameaça real à segurança da instalação.