Nesta quinta-feira, 24 de setembro, o calendário marítimo internacional marca o Dia Marítimo Mundial 2026 — data que a Organização Marítima Internacional (OMI) reserva, desde 1980, para a última quinta-feira de setembro de cada ano. Acompanho essa efeméride há alguns anos, e o que chama atenção nesta edição é a coincidência: o Brasil chega à data recém-saído de um recorde histórico de carga movimentada pelos seus portos, no mesmo ano em que a OMI escolheu um tema que cobra ação concreta, não só discurso.

Navio De Carga Em Porto Brasileiro Ao Entardecer, Ilustrando O Dia Marítimo Mundial 2026

Uma data que nasceu em março e se mudou para setembro

O Dia Marítimo Mundial não nasceu na data em que é celebrado hoje. A OMI o instituiu em 1978, pela resolução IMCO/C XXXVIII/21, e a primeira comemoração aconteceu em 17 de março daquele ano. Dois anos depois, em 1980, a Assembleia da organização transferiu a observância para a última semana de setembro, deixando cada governo-membro escolher o dia dentro desse período. Com o tempo, a prática se consolidou na última quinta-feira do mês — por isso, em 2026, a data cai em 24 de setembro.

A escolha do fim de setembro não é aleatória: marca o encerramento do terceiro trimestre, momento que a OMI costuma aproveitar para um balanço dos avanços regulatórios do ano. A cada edição, a organização define um tema diferente, geralmente vinculado a um desafio do momento — segurança, sustentabilidade ou, como agora, a distância entre a regra escrita e a prática no convés.

O tema 2026-2027: da política à prática

Para o biênio 2026-2027, a OMI escolheu o tema “From Policy to Practice: Powering Maritime Excellence” — em tradução livre, “Da política à prática: impulsionando a excelência marítima”. É a primeira vez que a organização adota um tema pensado para vigorar por dois anos seguidos em vez de apenas um, sinal de que quer dar tempo para o conceito sair do papel. O secretário-geral da OMI resumiu o objetivo como garantir que as regulamentações internacionais sejam de fato colocadas em ação pelos Estados-membros, com a assistência técnica necessária para isso.

O tema se divide em três frentes: “da política à prática” é traduzir o marco regulatório internacional em legislação nacional, fiscalização e operação real; “impulsionando” é o suporte via capacitação e cooperação técnica entre países; e “excelência marítima” é o objetivo final — uma indústria segura, eficiente e ambientalmente sustentável. Depois de mais de 70 anos elaborando marcos regulatórios, a OMI parece reconhecer que o gargalo não é mais escrever regras, e sim fazer com que elas cheguem à prática.

O mar que carrega 80% do comércio do planeta

Por trás da data está uma estatística que uso sempre que preciso justificar por que o transporte marítimo merece um dia só seu: mais de 80% do volume do comércio mundial se move por navios, segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) citados pela ONU Brasil. É o setor que sustenta praticamente tudo que chega até nós — combustível, grãos, minério, contêineres cheios de produtos manufaturados — e que, mesmo assim, segue invisível para quem não trabalha diretamente com ele.

Essa invisibilidade tem um custo: a mesma UNCTAD aponta que o transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, com crescimento de 20% em uma década. É a tensão que o tema deste ano tenta endereçar: existem regras internacionais de eficiência energética há anos, mas a aplicação prática — motores mais limpos, combustíveis alternativos, rotas otimizadas — ainda caminha mais devagar que o texto regulatório.

O recorde brasileiro que chega junto com a data

É aqui que a efeméride ganha um gancho local concreto. Em fevereiro deste ano, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) divulgou que o setor aquaviário brasileiro movimentou 1,4 bilhão de toneladas de carga em 2025 — o maior volume da história, 6,1% acima das 1,32 bilhão de toneladas de 2024. Frederico Dias, diretor-geral da Antaq, resumiu o resultado como “mais um recorde de movimentação do setor aquaviário”.

Os números por categoria mostram onde está o grosso desse volume: granéis sólidos somaram 839,7 milhões de toneladas (+6,3%), puxados pelo minério de ferro (cerca de 30% de tudo que passa pelos portos brasileiros, 72% dele exportado para a China); granéis líquidos, como petróleo bruto (16% do total), somaram 333 milhões de toneladas (+6,1%); e contêineres somaram 164,6 milhões de toneladas, com o maior crescimento percentual da lista (+7,2%).

Por trás está um ciclo de investimento que cresceu no mesmo período: entre 2020 e 2025, os aportes privados em infraestrutura portuária saltaram de R$ 129,3 bilhões para R$ 234,9 bilhões, e os públicos, de R$ 36,4 bilhões para R$ 45,1 bilhões — total combinado de R$ 165,7 bilhões para R$ 280 bilhões. A Antaq projeta 1,44 bilhão de toneladas em 2026 (+2,7%) e 1,59 bilhão em 2030.

Da política à prática, também no Brasil

O que me parece mais interessante nesse cruzamento de datas é que o Brasil, sem ter planejado isso, virou um pequeno estudo de caso do tema que a OMI escolheu para o biênio. O arcabouço regulatório do setor aquaviário — da modernização das concessões portuárias ao programa BR do Mar, criado para fortalecer a cabotagem — vinha sendo discutido havia anos antes de aparecer nos números de movimentação. O recorde de 2025 é, em certo sentido, a política virando prática: regras e investimentos que levaram tempo para amadurecer resultando em volume real passando pelos portos.

O mesmo movimento aparece na frota naval brasileira, onde a modernização técnica também tem saído do papel: a Marinha do Brasil levou a fragata Tamandaré (F200) a se tornar a primeira unidade da classe MEKO A100MB do mundo a obter a certificação internacional DNV SHOCK, processo que exigiu anos de testes e adequação a normas técnicas internacionais antes de virar realidade operacional — outro exemplo de regulamentação internacional sendo, de fato, colocada em prática por aqui.

Para quem navega, seja em um veleiro de fim de semana ou acompanha o movimento dos grandes portos, o Dia Marítimo Mundial 2026 chega como lembrete de que o mar visto da praia ou do convés é só a ponta de uma cadeia que move mais de 80% de tudo que consumimos — e que, neste ano, tem um capítulo recente escrito também em português.

Perguntas frequentes

  • Por que o Dia Marítimo Mundial não tem data fixa no calendário?

    Porque a OMI, desde 1980, define apenas que a celebração ocorre na última semana de setembro, cabendo a cada governo-membro escolher o dia exato. Com o tempo, a prática se consolidou na última quinta-feira do mês, que em 2026 cai em 24 de setembro.

  • Qual é o tema do Dia Marítimo Mundial em 2026?

    “From Policy to Practice: Powering Maritime Excellence” (“Da política à prática: impulsionando a excelência marítima”), primeiro tema da OMI planejado para vigorar por dois anos seguidos, 2026 e 2027.

  • Quanto o transporte marítimo representa do comércio mundial?

    Mais de 80% do volume do comércio mundial é transportado por navios, segundo dados da UNCTAD citados pela ONU Brasil — a espinha dorsal logística do planeta, mesmo pouco visível no dia a dia.

  • Qual foi o recorde brasileiro anunciado pela Antaq?

    O setor aquaviário brasileiro movimentou 1,4 bilhão de toneladas de carga em 2025, alta de 6,1% sobre 2024 e o maior volume já registrado.