O Santuário de Baleias do Atlântico Sul volta à mesa de votação da Comissão Baleeira Internacional (CIB) na reunião IWC70, marcada para 27 de setembro a 2 de outubro de 2026 em Hobart, na Tasmânia. Acompanho essa história há tempo como quem acompanha uma regata de resistência: a proposta brasileira foi apresentada pela primeira vez em 1998, ao lado da África do Sul, e já leva 28 anos tentando cruzar uma linha de chegada que, até hoje, ficou sempre a um punhado de votos de distância.

Não é exagero de linguagem. Na votação mais recente, em 2024, durante a IWC69, a proposta recebeu 40 votos a favor, 14 contra e 3 abstenções — exatamente o número mínimo de apoios necessários, mas insuficiente porque a regra da CIB exige 75% de aprovação entre os países presentes, e abstenções contam contra esse cálculo. O resultado foi decidido, segundo o histórico da própria votação, pela mudança de posição de Benim e Costa do Marfim, que recuaram de compromissos assumidos anteriormente. Chamou atenção o caso de Benim: o presidente do país havia assinado, em maio de 2024, uma declaração conjunta com o presidente Lula em apoio ao santuário — mas o representante beninense na CIB votou contra.

Baleia Jubarte Emergindo Nas Águas Do Atlântico Sul, Região Proposta Para Santuário De Conservação

Uma proposta que atravessa gerações diplomáticas

Para entender por que essa votação pesa tanto, vale olhar a cronologia. O Brasil e a África do Sul começaram a desenhar a proposta em 1998. Em 2001, um grupo de países do Sul Global — que já incluía Argentina, Gabão e Uruguai como copatrocinadores — apresentou formalmente o texto à CIB, mas ele não foi adotado. Desde então, o santuário voltou à pauta em praticamente todas as reuniões bienais da comissão: 2012 (38 a favor, 21 contra), 2014 (40 a favor, 18 contra), 2016 (38 a favor, 24 contra, cerca de 60% de aprovação) e 2018, durante a IWC67 realizada em Florianópolis — a primeira vez que a reunião aconteceu em solo brasileiro, e ainda assim a proposta não passou.

A campanha de 2016 é um bom retrato de como o tema mobiliza a sociedade civil e não só diplomatas: o Ministério do Meio Ambiente lançou a campanha #santuárioeuapoio, e o Greenpeace Brasil coordenou uma petição que reuniu cerca de 830 mil assinaturas em menos de três meses. Mesmo assim, o placar não foi suficiente diante da regra dos três quartos.

O que está em jogo debaixo d’água

A área proposta para o santuário não é pequena: mais de 20 milhões de km² de oceano, abrangendo praticamente todo o Atlântico Sul — as mesmas águas onde, em setembro, o litoral do Rio de Janeiro registrou um recorde de avistamentos de baleias nesta temporada. Segundo os documentos oficiais da CIB, a região é habitada por 51 espécies de cetáceos, das quais seis — baleia-fin, cachalote, baleia-azul, baleia-sei, baleia-franca e baleia-minke — estão entre as espécies migratórias mais ameaçadas de extinção.

O argumento histórico por trás da proposta é pesado: só no século 20, cerca de 2,9 milhões de baleias foram caçadas no mundo, e 71% dessas mortes aconteceram no hemisfério sul. A ideia do santuário nunca foi apenas simbólica — é dar a essas populações um “espaço de recuperação”, nas palavras usadas pelos proponentes, livre de caça comercial durante rotas de migração, reprodução e criação de filhotes.

Hoje a caça comercial já não é o principal risco na maior parte dessas águas — é o tráfego marítimo. Uma reportagem publicada pelo Nexo Jornal em 16 de setembro mostrou como corredores logísticos internacionais se sobrepõem cada vez mais a áreas habitadas por baleias e golfinhos, num cenário de tráfego marítimo em expansão no pós-pandemia. Colisões com embarcações, poluição sonora, lixo marinho e o aquecimento dos oceanos completam a lista de ameaças que, segundo especialistas ouvidos nesse histórico, tornam a proteção formal do santuário mais urgente do que quando a proposta nasceu, em 1998.

Por que 2026 pode ser diferente

Dois fatores mudam o pano de fundo desta votação em relação às tentativas anteriores. O primeiro é político-diplomático: depois do resultado apertado de 2024, os países proponentes chegam a Hobart sabendo exatamente quantos votos faltaram e onde as posições podem ter mudado — e sabendo, também, que qualquer recuo pontual de um país pequeno pode decidir tudo, como ocorreu com Benim.

O segundo é jurídico e ambiental: em janeiro de 2026 entrou em vigor o Tratado Global dos Oceanos (o acordo internacional sobre biodiversidade em áreas além da jurisdição nacional, negociado sob a ONU), que abre uma nova fase de proteção para 64% da superfície oceânica do planeta — justamente as águas de alto-mar que ficam fora das zonas econômicas exclusivas dos países costeiros. Para quem defende o santuário, o novo tratado reforça o argumento de que a comunidade internacional já decidiu, em outro fórum, que grandes áreas oceânicas precisam de regras de proteção coletiva — o que tornaria mais difícil, politicamente, barrar uma iniciativa semelhante dentro da própria CIB.

O Brasil já protege as baleias em suas águas — o oceano aberto é outra história

Vale lembrar que, internamente, o Brasil resolveu essa questão há quase quatro décadas: a Lei nº 7.643, de 18 de dezembro de 1987, proíbe a pesca e qualquer forma de molestamento intencional de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras, com penas previstas para quem descumprir. É uma das legislações ambientais mais antigas e estáveis do país nessa área, e ajuda a explicar por que o Brasil banca a articulação diplomática do santuário havia quase três décadas: falta justamente estender ao alto-mar do Atlântico Sul uma lógica de proteção que o país já aplica à sua própria costa.

É esse descompasso — proteção nacional consolidada, proteção internacional ainda pendente — que torna a reunião em Hobart, na próxima semana, o capítulo mais aguardado desta história em muito tempo. Se a proposta finalmente atingir os 75% necessários, o Atlântico Sul se tornaria o terceiro santuário baleeiro do mundo, ao lado do Oceano Índico (1979) e do Santuário do Oceano Antártico (1994) — e o primeiro criado em mais de 30 anos.

Perguntas frequentes

  • O que é o Santuário de Baleias do Atlântico Sul?

    É uma proposta de área marinha protegida de mais de 20 milhões de km² no Atlântico Sul, onde a caça comercial de baleias e outros cetáceos seria permanentemente proibida. A ideia foi apresentada pela primeira vez pelo Brasil e pela África do Sul em 1998.

  • Por que a proposta nunca foi aprovada até agora?

    Porque a Comissão Baleeira Internacional exige 75% de aprovação entre os países presentes para criar um santuário, e países com tradição baleeira, como Japão, Noruega e Islândia, historicamente se opõem ou articulam votos contrários de outras nações.

  • Quando é a próxima votação?

    A proposta será discutida na reunião IWC70 da Comissão Baleeira Internacional, marcada para 27 de setembro a 2 de outubro de 2026, em Hobart, na Tasmânia (Austrália).

  • Quais espécies de baleias seriam beneficiadas?

    A área abriga 51 espécies de cetáceos, incluindo seis espécies migratórias classificadas como ameaçadas: baleia-fin, cachalote, baleia-azul, baleia-sei, baleia-franca e baleia-minke.