Recifes de ostras não costumam chamar a atenção como corais coloridos ou baleias migrando pela costa, mas um estudo publicado nesta semana na Frontiers in Marine Science me fez olhar para essas formações de um jeito diferente. Segundo a pesquisa, recifes de ostras totalmente restaurados nos dez países com maior potencial para isso poderiam gerar um valor ecológico bruto de cerca de US$ 12 trilhões — uma cifra que, mesmo com todas as ressalvas que vou detalhar aqui, dá uma dimensão do que perdemos quando esses bancos desaparecem debaixo d’água sem que quase ninguém perceba.

Close-Up De Um Banco De Conchas De Ostras
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O que diz o estudo

A pesquisa foi conduzida por Yuhan Wu e Matteo Convertino, do Ecosystem Intelligence and Design Center (TREES) da Tsinghua Shenzhen International Graduate School, na China, e publicada em 7 de outubro de 2026 na Frontiers in Marine Science (DOI 10.3389/fmars.2026.1900813). Os autores criaram um modelo de “ecopotencial” para recifes de ostras, cruzando dados de milhares de registros geográficos de ostras com variáveis ambientais como temperatura da água, luz disponível no fundo do mar, salinidade e produtividade marinha, numa resolução de cerca de 9,2 km.

O resultado é um mapa de adequação de habitat que aponta cerca de 295,7 mil km² de áreas costeiras com alto potencial para recifes de ostras, concentradas em dez países: Estados Unidos, Austrália, Chile, China, Japão, Coreia do Sul, Argentina, França, Alemanha e Itália. É sobre essas áreas que incide a estimativa de US$ 12 trilhões em Produto Ecossistêmico Bruto (GEP, na sigla em inglês) — um indicador que tenta colocar em termos monetários benefícios como purificação da água, armazenamento de carbono nas conchas, remoção de nutrientes e proteção costeira contra erosão e ressacas.

Por que a conta chega a trilhões — e por que não é uma receita anual

Vale destacar algo que o próprio estudo faz questão de deixar claro: os US$ 12 trilhões não são um faturamento, um lucro ou um pagamento anual que algum país vai receber. É um cenário estático de valor bruto da biomassa e dos serviços ecossistêmicos associados a recifes de ostras totalmente restaurados, somando benefícios que, na prática, se realizam em escalas de tempo diferentes — carbono armazenado ao longo de décadas, proteção costeira ano a ano, purificação de água em tempo quase real. Por isso os autores evitam tratar a cifra como uma espécie de retorno financeiro disponível para saque.

Ainda assim, o número ajuda a entender a escala do problema: estimativas anteriores, citadas no próprio artigo, indicam que mais de 85% dos recifes de ostras já foram perdidos no mundo ao longo do último século, vítimas de dragagem, poluição, sobrepesca e perda de habitat costeiro. O estudo também mostra que apenas cerca de 10% das áreas identificadas como altamente favoráveis coincidem com registros atuais de ostras — o que não significa necessariamente que o restante esteja vazio, já que a base de dados de ocorrências é reconhecidamente incompleta, mas sinaliza um gigantesco potencial de restauração ainda não mapeado em campo.

Estuários, áreas protegidas e o que falta no mapa

Um dado que me chamou atenção é que cerca de 72% dos recifes previstos pelo modelo estão em estuários — exatamente os ambientes de transição entre rio e mar que mais sofrem pressão de desenvolvimento urbano, portos e aquicultura em todo o mundo. Outro ponto relevante: cerca de 23% da área global modelada como favorável já se sobrepõe a áreas marinhas e costeiras protegidas, o que indica que parte da proteção legal necessária já existe no papel, mesmo que a restauração ativa dos recifes ainda não tenha acompanhado esse arcabouço.

Os próprios autores tratam o resultado como uma triagem macroecológica, não como confirmação de presença ou ausência de recifes em cada ponto do mapa — células de alta adequação sem registro conhecido são indicadas como candidatas prioritárias para levantamentos de campo futuros, não como recifes já comprovados. Essa cautela metodológica é importante para quem for usar o estudo como base para políticas públicas ou projetos de restauração costeira.

E o Brasil, fica de fora da lista?

O Brasil não aparece entre os dez países priorizados pelo modelo, que concentra a análise em litorais da América do Norte, Ásia, Oceania e Europa, além de Chile e Argentina na América do Sul. Isso não quer dizer que a ostreicultura brasileira seja irrelevante — Santa Catarina segue como o principal polo de cultivo de ostras do país, com produtores que enfrentam desafios próprios, como episódios de mortalidade em massa ligados a ondas de calor marinho nos últimos anos. A diferença é que o estudo chinês mede recifes naturais ou restauráveis em escala de paisagem costeira, e não o cultivo comercial em bancos, que é a realidade predominante da produção brasileira de ostras.

De qualquer forma, o estudo reforça algo que já vínhamos acompanhando aqui no blog ao longo do ano: o valor econômico atribuído à conservação marinha tem ganhado peso crescente nas discussões internacionais, seja em torno de santuários de baleias, seja — agora — em torno de recifes de ostras quase invisíveis sob a superfície da água.

Perguntas frequentes

  • Quem fez o estudo sobre os recifes de ostras de US$ 12 trilhões? A pesquisa foi conduzida por Yuhan Wu e Matteo Convertino, do Ecosystem Intelligence and Design Center da Tsinghua Shenzhen International Graduate School, na China, e publicada em 7 de outubro de 2026 na revista Frontiers in Marine Science.
  • Os US$ 12 trilhões são um valor que algum país vai receber todo ano? Não. É uma estimativa de valor ecológico bruto (Produto Ecossistêmico Bruto) de recifes de ostras totalmente restaurados, combinando benefícios de longo prazo como armazenamento de carbono, purificação de água e proteção costeira — não uma receita anual real.
  • Quais países concentram o maior potencial de recifes de ostras, segundo o estudo? Estados Unidos, Austrália, Chile, China, Japão, Coreia do Sul, Argentina, França, Alemanha e Itália, que juntos somam cerca de 295,7 mil km² de áreas costeiras com alta adequação ambiental para recifes de ostras.
  • O Brasil está entre os países analisados pelo estudo? Não. O modelo prioriza litorais da América do Norte, Ásia, Oceania e Europa, além de Chile e Argentina na América do Sul. O Brasil tem produção relevante de ostras cultivadas, sobretudo em Santa Catarina, mas fora do escopo geográfico desta análise específica de recifes naturais.