A travessia a remo de Raphael Garcia pelo Atlântico Sul chegou ao fim em 22 de agosto de 2026, depois de 136 dias sozinho no mar entre Lüderitz, na Namíbia, e Salvador, na Bahia. Acompanho a náutica brasileira há tempo suficiente para reconhecer quando uma história foge do calendário de eventos e vira algo maior: Garcia não apenas cruzou cerca de 6.500 quilômetros de oceano a remo, ele recriou, quase quatro décadas depois, a rota que Amyr Klink abriu em 1984 e transformou no livro “Cem Dias entre Céu e Mar”. A coincidência de datas com o São Paulo Boat Show 2026, que recebe Garcia neste fim de semana para contar a viagem ao público, deu a este ano um motivo extra para revisitar essa história.

Barco A Remo Cruzando Sozinho O Atlântico Sul Ao Entardecer

Uma rota que já é lenda da navegação brasileira

Em 1984, Amyr Klink saiu da Namíbia remando sozinho rumo ao Brasil e completou a travessia em 100 dias, guiado por navegação celeste e por semanas inteiras sem certeza exata de sua posição no mar. O relato, publicado depois no best-seller “Cem Dias entre Céu e Mar”, tornou-se referência para gerações de navegadores brasileiros e, mais recentemente, inspirou até uma adaptação para o cinema, o filme “100 Dias”. Para quem cresceu lendo esse livro, a rota Namíbia–Brasil carrega um peso simbólico específico: é a prova de que a travessia solo a remo do Atlântico Sul, uma das mais duras do planeta, podia ser vencida por um brasileiro com os recursos de quatro décadas atrás.

Raphael Garcia, hoje com 34 anos, cita o livro de Klink como a origem direta do projeto. Ele construiu o próprio barco, batizado de Sater, na Nova Zelândia, e partiu do mesmo porto africano usado por Klink em 1984. O casco tem pontas curvas para dissipar o impacto das ondas, compartimentos estanques para conter eventuais alagamentos e um sistema de drenagem na área de remo — um projeto pensado para não virar, e que, segundo o próprio navegador, cumpriu essa promessa: Garcia não capotou em nenhum momento das 136 jornadas no mar.

136 dias contra 100: o que mudou e o que não mudou

A travessia de Garcia levou 36 dias a mais que a de Klink, mas comparar apenas a duração das duas viagens esconde o que realmente separa 1984 de 2026. Klink dependia de navegação celeste e passava semanas sem conseguir confirmar sua posição com exatidão. Garcia teve GPS, baliza de emergência via satélite e acesso rápido a informações meteorológicas — ferramentas que reduzem o risco, mas não eliminam o desafio físico e psicológico de remar sozinho por mais de quatro meses. Em suas próprias palavras, a viagem “demanda muito de você”: dor nas mãos, dor nas pernas, e a necessidade de ignorar o desconforto para seguir remando.

Garcia descreve a relação com o oceano em termos de humildade mais do que de conquista. “Eu era muito mais um passageiro ali, pedindo passagem para o mar”, disse ele depois de completar a travessia — uma frase que resume bem a diferença entre dominar a tecnologia de navegação e efetivamente vencer o Atlântico Sul. A tecnologia ajuda a saber onde se está; não ajuda a remar as últimas centenas de quilômetros.

A reta final: 36 horas remando sem parar

O trecho mais difícil da travessia não foi o meio do oceano, mas a aproximação da costa brasileira. Perto da Baía de Todos os Santos, correntes e ventos contrários obrigaram Garcia a remar cerca de 36 horas seguidas, sem descanso, para não perder a posição conquistada com meses de esforço e conseguir atracar na Marina Bahia, em Salvador. Ao desembarcar, em 22 de agosto, o sentimento predominante foi de alívio: “O principal sentimento foi de alívio e alegria muito grande de chegar”, relatou o navegador.

Quem o esperava no cais era o próprio Amyr Klink, hoje com décadas de experiência acumulada em expedições polares e oceânicas depois daquela primeira travessia solo. Em entrevista ao jornal A Tarde, Klink chamou a chegada de Garcia de “a cereja no topo do bolo” e elogiou a discrição com que o projeto foi preparado, da construção do barco na Nova Zelândia até a largada do mesmo porto africano usado em 1984: “Ele mostrou que tem competência”, resumiu. O encontro entre quem abriu a rota e quem a repetiu 42 anos depois fechou um ciclo raro no esporte náutico brasileiro — poucas modalidades permitem a um pioneiro testemunhar, ainda em atividade, alguém refazer sua proeza original.

O reencontro com o público no São Paulo Boat Show

A repercussão da travessia chega agora ao maior salão náutico da América Latina. O São Paulo Boat Show 2026, que ocupa o São Paulo Expo entre 24 e 29 de setembro, reservou para este domingo, dia 27, às 16h, um espaço na programação de palestras Náutica Talks para que Garcia conte os bastidores da viagem diretamente ao público. A curadoria do evento reuniu, na mesma edição, outros relatos de grandes navegações: José Guilherme Caldas fala sobre a regata GLOBE40, que dura mais de oito meses; a velejadora conhecida como Maria ao Vento apresenta o projeto de construir o próprio veleiro para dar a volta ao mundo; e Marcos Hurodovich detalha o retrofit do veleiro Rapa-Nui para uma expedição à Antártida.

Faz sentido que um evento voltado à venda de lanchas e veleiros reserve espaço para esse tipo de relato. Como resumiu a organização do ciclo de palestras, histórias como a de Garcia “aproximam o público de quem viveu grandes travessias oceânicas e revelam bastidores, decisões e aprendizados que vão além da própria travessia” — um contraponto humano ao noticiário mais comercial do salão, como o barco-carro batizado Seacar Velocity que também estreou nesta edição do evento.

Por que essa história importa para a náutica brasileira

A travessia de Garcia não bateu recorde de velocidade nem abriu uma rota inédita — e é justamente por isso que ela diz algo interessante sobre o estado atual da navegação oceânica solo. Quatro décadas depois de Klink provar que a proeza era possível, ainda existem poucos navegadores dispostos a repeti-la, mesmo com GPS, comunicação por satélite e previsão meteorológica em tempo real. A dificuldade real da travessia solo a remo do Atlântico Sul nunca esteve apenas na navegação: está no corpo humano remando sozinho por mais de cem dias, algo que a tecnologia de 2026 tornou mais seguro, mas não tornou fácil.

Fica também um registro para a história marítima brasileira: pela primeira vez desde 1984, alguém repetiu integralmente a rota Namíbia–Brasil a remo, com a bênção e a presença do próprio autor da proeza original no momento da chegada. É o tipo de continuidade que poucas tradições náuticas conseguem sustentar por 42 anos.

Perguntas frequentes

  • Quem é Raphael Garcia? É um navegador brasileiro de 34 anos que, em 2026, tornou-se o primeiro a repetir integralmente a travessia solo a remo do Atlântico Sul aberta por Amyr Klink em 1984, remando da Namíbia até Salvador em 136 dias a bordo do barco Sater.
  • Qual a diferença entre a travessia de Amyr Klink e a de Raphael Garcia? Klink completou a rota em 100 dias em 1984, usando navegação celeste. Garcia levou 136 dias em 2026, com apoio de GPS e baliza de emergência via satélite, mas enfrentou o mesmo desgaste físico e psicológico de remar sozinho por meses.
  • Onde e quando Raphael Garcia vai contar a história pessoalmente? No São Paulo Boat Show 2026, dentro da programação de palestras Náutica Talks, no domingo, 27 de setembro, às 16h, no São Paulo Expo.
  • Qual foi o trecho mais difícil da travessia? A aproximação final da costa brasileira, perto da Baía de Todos os Santos, onde Garcia precisou remar cerca de 36 horas seguidas sem descanso para vencer correntes e ventos contrários antes de atracar em Salvador.