Na noite de 10 de outubro de 2026, o navio-escola Brasil cruzou o Rio Tâmisa e passou sob a Tower Bridge, em Londres, com a banda de bordo tocando “Hey Jude”, dos Beatles. O momento foi registrado em vídeo pelo perfil @about.ldn, no Instagram, e circulou rapidamente entre os canais de defesa brasileiros nos dias seguintes. Para quem acompanha o dia a dia da Marinha do Brasil, a cena tem um peso maior do que parece: é mais um capítulo de uma tradição que já passa de quatro décadas.
O navio em questão é o NE Brasil (U-27), construído no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Lançado ao mar em 23 de setembro de 1983 e incorporado à Armada em 21 de agosto de 1986, ele nasceu a partir do projeto das fragatas classe Niterói, com o casco e as instalações internas redesenhados para abrigar salas de aula e alojamentos de instrução no lugar de parte do armamento original. São 130,25 metros de comprimento, deslocamento de 2.548 toneladas vazio e 3.729 toneladas carregado, e dois motores diesel Pielstick que somam 7.800 cv, suficientes para 15 nós de cruzeiro e autonomia de 7.000 milhas náuticas.
Uma sala de aula que viaja o mundo desde 1987
A função do navio-escola Brasil é simples de descrever e difícil de replicar em terra: dar aos guardas-marinha da Escola Naval a etapa final de formação antes de se tornarem Segundos-Tenentes. A primeira Viagem de Instrução de Guardas-Marinha (I VIGM) saiu em março de 1987 e durou 215 dias, com escalas pela Europa, África, Américas e Ásia. Desde então, cada edição recebe um número romano próprio: a II VIGM, em 1988, tornou o Brasil o primeiro país a levar um navio de guerra à União Soviética, com escala em Leningrado; a III VIGM, em 1989, completou a sexta circunavegação já feita por um navio-escola brasileiro.
O navio tem salas de aula para 36 guardas-marinha e uma câmara de navegação para 40, além de espaço para até 204 guardas-marinha e uma tripulação de apoio que, nas primeiras viagens, somava mais de 400 pessoas entre oficiais e praças. Ao longo das décadas seguintes, a lista de marcos cresceu: a X VIGM, em 1996, passou da marca de 1.000 dias de mar acumulados; a XI VIGM, em 1997, fez a sétima circunavegação brasileira, com escalas no Pacífico e na Ásia; a XXII VIGM, em 2008, chegou à oitava.
A 40ª viagem e a escala britânica
A edição de 2026 corresponde à 40ª Viagem de Instrução. Antes de zarpar, o comandante do navio, capitão de mar e guerra Ricardo Lima Maia, reuniu a bordo parceiros do Projeto Navega Brasil em um congraçamento que associou a viagem às quatro décadas de formação de oficiais pelo navio, segundo registro do Portal da Navegação. A partir daí, a embarcação seguiu para uma comissão de cerca de cinco meses, repetindo o formato de sempre: meses de mar, decenas de portos e intercâmbios técnicos e culturais com as marinhas e instituições dos países visitados.
Londres é parada frequente nesse roteiro, e não por acaso. A Marinha do Brasil mantém há anos vínculos acadêmicos com instituições britânicas, entre elas o King’s College London, e escalas como esta costumam servir também para renovar esse contato. A passagem deste ano, no entanto, ficou marcada por um detalhe que nada tem a ver com protocolo naval: a escolha de “Hey Jude” para acompanhar a travessia sob um dos cartões-postais mais fotografados do mundo. Segundo o relato do Poder Naval, o navio permaneceu cinco dias na capital britânica, com visitação pública aberta em 11, 12 e 14 de outubro, das 14h às 17h.
Esse tipo de escala cumpre duas funções ao mesmo tempo. Treina marinheiros em navegação de rio, meteorologia e manobras em águas estreitas e movimentadas como as do Tâmisa, e também projeta a imagem do país no exterior, o que a própria Marinha descreve como “mostrar bandeira”. É a mesma lógica, em outra escala, que orienta missões como a sinalização binacional do Rio Paraguai feita pela Comissão BALIZOPE: embarcações da Marinha cumprindo uma missão técnica que, ao mesmo tempo, reforça laços com outro país.
Por que um navio de 1986 ainda importa
Há quem estranhe que a Marinha ainda dependa de um navio com quase 40 anos de incorporação para formar seus futuros oficiais. A resposta está na própria natureza da viagem de instrução: o valor não está na tecnologia do casco, mas na experiência acumulada de meses seguidos no mar, em portos diferentes, lidando com imprevistos que nenhuma sala de aula em terra reproduz. Um guarda-marinha que passa pela VIGM sai dela tendo pilotado em canais estreitos, participado de cerimônias protocolares em países distintos e convivido com tripulações de outras marinhas, muitas vezes a bordo do próprio navio Brasil.
Essa combinação explica por que o programa resistiu a décadas de mudanças na Marinha e no cenário naval mundial sem perder relevância. Enquanto fragatas e submarinos mais novos cuidam da capacidade de combate, o navio-escola Brasil segue cumprindo uma tarefa que nenhum deles substitui: formar, viagem após viagem, a geração seguinte de oficiais que vai comandar essas mesmas embarcações.
Perguntas frequentes
- O que é o navio-escola Brasil? É o NE Brasil (U-27), embarcação da Marinha do Brasil construída a partir do projeto das fragatas classe Niterói e incorporada em 1986 para servir de sala de aula flutuante aos guardas-marinha em formação.
- Por que o navio tocou “Hey Jude” em Londres? A banda de bordo executou a música durante a travessia sob a Tower Bridge, em 10 de outubro de 2026, como parte da tradição de homenagear o país visitado durante as escalas da viagem de instrução.
- Quantas viagens de instrução o navio já fez? A escala em Londres em 2026 faz parte da 40ª Viagem de Instrução de Guardas-Marinha, programa iniciado em 1987.
- É possível visitar o navio durante essas escalas? Sim. Em Londres, a visitação pública foi aberta em três dias durante a estadia de cinco dias do navio, sempre com horário limitado e sujeita à agenda de cada porto.




















