The Ocean Race Atlantic 2026 terminou da forma mais dramática possível: depois de quase oito dias cortando 3.000 milhas náuticas de Nova York a Lorient, na França, a diferença entre o primeiro e o segundo colocado foi de apenas 8 minutos e 56 segundos. Acompanhei o desenrolar dessa estreia com atenção redobrada porque ela não é só mais uma regata oceânica — é o ensaio geral para a volta ao mundo de 2027, que vai parar em Itajaí, em Santa Catarina, pela quinta vez consecutiva. A disputa apertada lembra um pouco o clima que vimos há poucos dias na Refeno 2026, ainda que em outra escala de distância e tecnologia.

Uma prova nova, testando o formato de ponta a ponta
A The Ocean Race Atlantic 2026 foi a primeira edição ponto a ponto da história da competição, que normalmente é organizada em etapas com paradas técnicas ao longo do trajeto. Seis equipes largaram de Nova York em 2 de setembro rumo a Lorient, todas a bordo de IMOCA 60 equipados com foils, os apêndices submersos que erguem o casco da água e permitem às monotipos ultrapassar os 30 nós em condições favoráveis.
As primeiras jornadas da travessia foram marcadas por ventos acima de 30 nós e mar formada, o que tornou o sono e a recuperação física um desafio à parte para as tripulações. A Team Malizia, uma das favoritas, sofreu uma avaria no sistema de controle do foil de bombordo e precisou improvisar reparos em pleno Atlântico para seguir competitiva.
Oito minutos e 56 segundos de diferença
O United by the Ocean, comandado pela dupla franco-portuguesa Paul Meilhat e Mariana Lobato, cruzou a linha de chegada em Lorient no dia 10 de setembro às 13h39min11s (horário local), fechando o percurso em 7 dias, 23 horas, 39 minutos e 11 segundos. A Team Francesca Clapcich powered by 11th Hour Racing chegou em segundo, apenas 8 minutos e 56 segundos depois — uma margem mínima depois de quase 3.000 milhas de navegação. A DMG MORI Global One ficou em terceiro, e a Team Malizia, mesmo com a avaria no foil, fechou em quarto, cerca de cinco minutos atrás do terceiro colocado.
Mariana Lobato resumiu o clima da chegada: “It’s been a fantastic finish here for us against 11th Hour Racing.” Francesca Clapcich, que em 2022-23 havia se tornado a primeira mulher italiana a vencer a The Ocean Race, descreveu a disputa como “a frota ainda muito compacta, e isso é emocionante”.
Cinquenta por cento de cada lado, pela primeira vez em 53 anos
Um dos aspectos que mais me chamou atenção nessa edição não tem relação direta com velocidade, mas com quem estava no leme. Pela primeira vez na história de 53 anos da competição, todas as seis equipes foram obrigadas a navegar com exatamente dois homens e duas mulheres a bordo — uma exigência de paridade total de gênero que nenhuma edição anterior havia imposto.
O avanço não veio do nada: na edição de 2014-15, apenas 18% dos competidores eram mulheres; em 2022-23, esse número subiu para 28%, com a exigência de ao menos uma mulher por equipe. A mudança para 50/50 na edição Atlantic representa um salto qualitativo, não apenas quantitativo. Paul Meilhat, skipper da Team Biotherm, colocou dessa forma: “ter uma tripulação 50/50 garante mais oportunidades para velejadoras… experiências e formas de pensar diferentes tornam a equipe mais forte.” Rebecca White, conselheira sênior da organização, foi na mesma linha, dizendo que a representação igualitária em competições de elite “é significativa não só na vela, mas dentro do esporte de forma geral.”
Na prática, isso significa que, pela primeira vez, uma regata oceânica de altíssima performance colocou lado a lado, em número igual, homens e mulheres pilotando embarcações foilantes a mais de 30 nós em condições adversas — sem cota simbólica, sem exceção.
A conexão direta com o Brasil
Para quem acompanha vela oceânica por aqui, o desfecho em Lorient tem um gancho local concreto. Uma delegação de Itajaí, representada pelo chefe de gabinete do prefeito, André Sandri, acompanhou a cerimônia de encerramento na França em missão de trabalho — chegou a entregar as medalhas para a Embrace the Challenge, quinta colocada, e se reuniu com representantes de outras cidades-sede, como St. Pete-Clearwater (EUA) e Cascais (Portugal), discutindo vila da regata, operação do evento e engajamento do público.
O motivo do interesse é direto: Itajaí vai sediar, entre 31 de março e 18 de abril de 2027, a parada brasileira da The Ocean Race 2027 — a volta ao mundo completa, que larga de Alicante, na Espanha, em 17 de janeiro de 2027. Será a quinta vez consecutiva que a cidade catarinense recebe a regata e a décima primeira visita da competição ao Brasil, consolidando Itajaí como único porto brasileiro no calendário. As projeções locais apontam entre 420 mil e 500 mil visitantes — até 31% acima dos 381 mil de 2023 — e impacto econômico estimado em R$ 271 milhões, cerca de 39% acima dos R$ 195,6 milhões da edição anterior, espalhados por hotelaria, alimentação, comércio, transporte, serviços náuticos e empregos.
Carlos Gayoso de Oliveira, diretor da Marina Itajaí, resumiu o peso do evento para a cidade: “A The Ocean Race transcendeu o esporte e se tornou uma plataforma de desenvolvimento para Itajaí. A chegada dos veleiros mobiliza uma cadeia inteira.”
Uma corrida que também serviu de laboratório
Vale reforçar que a The Ocean Race Atlantic 2026 não foi um evento isolado — funcionou como preparação oficial para 2027, testando o formato IMOCA foilante, a logística de vila de regata e a própria regra de paridade de gênero que deve se repetir na volta ao mundo. As seis equipes que disputaram o Atlântico devem, em boa parte, reaparecer na largada de Alicante em janeiro de 2027, já rodadas por uma travessia decidida por menos de dez minutos depois de oito dias no mar.
Para o público brasileiro, o recado prático é reservar as datas de abril de 2027 na agenda: acompanhar de perto embarcações que vêm de disputar uma volta ao mundo inteira, sabendo que a diferença entre o pódio e a quarta colocação pode se resumir a poucos minutos de vento a favor.
Perguntas frequentes
- O que foi a The Ocean Race Atlantic 2026?Foi a primeira edição ponto a ponto da história da competição, uma travessia de aproximadamente 3.000 milhas náuticas entre Nova York e Lorient, na França, disputada por seis equipes em veleiros IMOCA 60 com foils, entre 2 e 10 de setembro de 2026.
- Quem venceu a regata e qual foi a margem de vitória?A equipe United by the Ocean, comandada por Paul Meilhat e Mariana Lobato, venceu em 7 dias, 23 horas, 39 minutos e 11 segundos, com apenas 8 minutos e 56 segundos de vantagem sobre a Team Francesca Clapcich powered by 11th Hour Racing.
- Por que a exigência de tripulação 50/50 é considerada histórica?Porque, em 53 anos de existência da competição, nenhuma edição havia exigido paridade total de gênero a bordo. Antes, a participação feminina evoluiu de 18% em 2014-15 para 28% em 2022-23, sem uma exigência de equilíbrio igual entre homens e mulheres.
- Qual é a relação dessa regata com o Brasil?Itajaí (SC) vai sediar, entre 31 de março e 18 de abril de 2027, a única parada brasileira da The Ocean Race 2027, a volta ao mundo completa. Uma delegação da cidade acompanhou o encerramento da etapa Atlantic em Lorient para se preparar para receber o evento pela quinta vez consecutiva.

















